Andreia Santos Opinião

Opinião. O problema é pensar que temos tempo…

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

Já alguém leu este título noutro lugar certamente. Tenho refletido sobre isto, creio pela pela razão óbvia de que o tempo passa mesmo e eu sinto-o, como tu talvez. Acabei de ouvir a entrevista do Iker Casillas no Porto Canal. A determinada altura ouvi-o dizer que procurou com a Sara uma slow life, vida tranquila se traduzir, quando se instalou no Porto. Uma vida em que aquilo que importa pode ocupar espaço diria. E hoje então é disto que te quero falar.

Nos momentos mais penosos, senti, depois de compreender, que a dureza chegava do desalinhamento entre o que vivia e aquilo em que acreditava. Em que acreditas? E o que fazes para viver de acordo com isso? Todos os dias são bons para começar a lutar por nós, acrescento. O que quero escrever-te? Acima de tudo que a vida que tens é tua, depois e logo a seguir, um dia ela acaba. “Lost time is never found again”… não percas tempo… “Amanhã”, “na próxima semana”, “no próximo ano” estas são respostas frequentes que damos quando nos surgem oportunidades profissionais e pessoais.  Muitas vezes presumimos, é até fácil supor porque temos muitas dificuldades em encarar a mortalidade, que existirá sempre um tempo melhor para viver e gostar do nosso tempo com os outros de quem gostamos por exemplo, mas isso não é na verdade garantido… um dia acordamos e percebemos que estamos arrependidos do que não fizemos porque já não dá. Erikson fala de vida íntegra, quando perto do fim nos podemos orgulhar de olhar para trás e ver que nos dedicamos ao que mais nos importa. Mas, também de desespero quando a sensação é a inversa. Como é que se tem uma vida tranquila? A resposta é simples. Sendo o que somos.

Tenho acompanhado várias pessoas, algumas com dificuldade em fazer hoje o que desejam realmente fazer. Na maioria das vezes é o medo que as trava. A pressão. E a tristeza chega por não se sentirem à altura, em expectativas auto confirmadas de fracasso. Até nestes casos o incentivo é o mesmo: ocupar o tempo com o que importa. Vivemos de muitos pensamentos irracionais. Acusamos cansaço porque o valor das coisas está fora do lugar. “Who’s in charge? The thinker or the thought?”, como te perguntaria a Susan David, autora do Emotional Agility. O que te orienta? Brad Stulberg fala muito da procura de validação pelo exterior para justificar o vazio que chega aos casos de sucesso e à partida paradoxal. Não tem nada de contraditório este sentimento: quando buscamos apenas nos outros ou na lógica social o sentido da nossa identidade perdemo-nos. Perdemos o caminho, a nossa unicidade. Deixamos de crescer e colapsamos. Quando procuramos o médico, inicialmente podemos procurar doenças físicas (que até existem), mas pode surgir aí a oportunidade de compreender que a origem dessas veio da emocional.

James Clear escreveu há pouco tempo: “Stop Wasting Time on the Details and Commit to the Fundamentals”. Tenho repetido muito que faz falta regressar ao básico, deixar de passar por cima do que humanamente nos faz falta: cuidados básicos, relações saudáveis, sentimento de pertença e comunidade, auto-realização e transcendência, (por trancendência entenda-se a capacidade para dar de nós a alguém/aos outros/ altruísmo ou missão, o que nos faz incrivelmente felizes). Conheces-te bem? Sabes reconhecer os teus limites, o que é mais importante ou em que é que tu és diferente das pessoas contigo? Pensa. E escolhe sempre.

“Está na natureza humana sentir a vida como eterna, mas ela não é”. Eu, por cá, tenho já o que recuperar. Não te esqueças de ti.  Boas férias. Até já.

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Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional