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Opinião. ‘De profundis’, histórias de Dor e superação I

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Escrito por Redação

São várias as histórias de Dor vindas das profundezas do ser humano. José Cardoso Pires no relato da luta com o AVC que o fez esquecer a memória e Oscar Wilde na procura da divindade durante um período de prisão são bastante conhecidas e presentes no nosso imaginário.

Ana teve, aos 20 anos, um dia de aniversário que jamais esquecerá. Um desmaio em casa levou-a até ao hospital mais próximo de casa que, depois a enviou para um hospital maior. Nesse hospital explicaram-lhe que tinham que a enviar para outro hospital, ainda maior, ainda mais longe de casa. Disse o médico: “Os teus rins pararam, Ana e não sabemos porquê.”

E foi assim que Ana se viu, em poucas horas, de estar a apagar as velas, a entrar num corredor enorme, deitada numa maca e a ver só as luzes frustres do tecto.

Horas depois veio outro médico que lhe disse que iria ser internada, que tudo iria ser feito para lhe devolver os seus rins. Que a equipa médica não iria desistir e, por isso, ela também não o podia fazer.

Ao fim de muitos meses, muitos tratamentos, muitas discussões sobre o que tinha causado a sua doença, Ana começou a melhorar. Magra, cansada mas sem nunca desistir, a medicação começou a actuar e os rins melhoraram.

Só uma coisa estava demasiado diferente – a Dor. Ana tinha Dor nas mãos, não tinha a mesma força que antes. Uma Dor intensa, permanente. Sentia-se pobre, longe do seu potencial. Afinal, tinha ganho a uma doença que quase lhe tirava a vida e não conseguia deixar de se sentir incapaz de ter uma vida normal.

Nas profundezas dessa Dor ouviu todo o tipo de considerações – que já era uma sorte estar viva, que nada na sua doença justificava a sua Dor, que tinha de viver com isso. E Ana aceitou isto. Afinal, era uma sorte estar viva, era uma sorte ter encontrado pessoas que nunca desistiram dela. Mas a angústia aumentou e num desabafo contou tudo o que sentia a alguém em quem confiava e que não a julgava.

E foi aí que Ana ouviu pela primeira vez algo que as profundezas nunca lhe tinham dito: “Só posso imaginar o que sentes e vou ajudar-te. Mereces muito mais do que apenas sobreviver.”

Decidiram procurar novamente ajuda. Depois de, a medo, ter contado todos os detalhes desta história ao novo médico, Ana sentiu-se aliviada mas também preocupada por recear que o médico a pudesse julgar ou desvalorizar aquilo que sentia.

Do médico, que raramente a interrompeu ao longo do seu relato, ouviu apenas: “Acredito em si e acredito na sua Dor.”

E um novo capítulo se iniciou, com a profundeza a ver a luz.

(Continua na próxima semana)

Nota:  história inspirada em factos verídicos

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