Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. ‘De profundis’, histórias de Dor e superação II

Redação
Escrito por Redação

Baudelaire escreveu: “mas até as minhas dores entendo mal; isto deve acontecer por eu não ser apenas dor e mais nada”. Esta é a continuação da história de Ana, que começamos a percorrer na passada semana. Uma história de compreensão de Dor profunda pelo médico pela pessoa com Dor e por todos os que a rodeiam.

O médico, que tinha dito a Ana “Acredito em si e acredito na sua Dor” estava preocupado. Sabia que a poderia ajudar mas não queria criar uma expectativa demasiado alta. A razão dizia-lhe ao ouvido que estes processos de tratamento são longos, que as pessoas nesta situação estão fragilizadas. E, por isso perguntou:

“Qual é o maior problema que a sua Dor lhe causa? Em que a posso ajudar?”

E, naquele momento, as lágrimas começam a cair, silenciosas no rosto de Ana. E correm como se estivessem suspensas há muitos meses. E a resposta de Ana, quase sussurrada, é ensurdecedora: “Não me lembro de alguém me ter perguntado isso em nenhuma consulta que tenha ido. Normalmente nesta altura já estaria a ouvir falar da sorte que tenho de estar viva e que sofrer faz parte da vida de todos nós.”

O médico, sorri e conta a Ana que num dos grandes estudos feitos sobre Dor se tinha chegado à conclusão que uma das melhores perguntas que se podia fazer a quem sofre com Dor era perguntar como se sente. Just ask your patients how they are doing, dizia o estudo. Nas perguntas simples, com respostas por vezes complexas, reside um dos segredos da compreensão da dor.

Ana explicou que estava incapaz de trabalhar e isso era o que a marcava mais. Acordava de manhã com as mãos “presas, rígidas”, os dedos não respondiam ao que o cérebro pedia. Se num dia até aguentava e conseguia ter um dia de trabalho quase normal, no seguinte era quase impossível mexer.

Era este o problema. E o problema de ter pessoas suas amigas que não compreendiam esta flutuação no seu estado de saúde e que começavam a duvidar da sua sinceridade. “Já não chega ter a minha vida do avesso, ter dor todos os dias e ainda tenho de lidar com o facto de sentir que quem me rodeia já não acredita  em mim”, dizia Ana.

Nesse momento o médico percebeu a magnitude do problema que afinal eram dois – a dor, descontrolada como num incêndio que não tem fim, e aqueles que rodeiam Ana no seu dia a dia, incrédulos, incapazes de lidar com a Dor de Ana.

Era preciso tomar decisões, começar a dar um rumo à dor que coloca esta pessoa em enorme sofrimento. Então o médico disse:

“Vou ajudá-la em três coisas: a primeira é perceber o que lhe causa esta dor; a segunda é encontrar o tratamento certo para que consiga ter uma vida o mais próximo possível do normal; e por fim, a conseguir explicar aos outros o seu problema de saude, para que eles não a julguem.”

As lágrimas, que estavam já quase secas no rosto de Ana, começaram a cair, num mar de alívio por se sentir, finalmente, compreendida.

Na próxima semana continuaremos esta história.

Nota:  história inspirada em factos verídicos

Comentários

Acerca do autor

Redação

Redação