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Vila Verde. Artista especial com paralisia cerebral pinta e utiliza o tablet com a boca

Foto: Luís Ribeiro / Semanário V
Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

É conhecido por Zé Manel o artista de Vila Verde que pinta e utiliza o tablet com a boca. Com uma história de vida impressionante, Zé Manel sofreu de paralisia cerebral aos seis meses e perdeu a mãe aos oito anos. Foi a sua irmã, Fátima Ribeiro, quem o criou, juntamente com mais dois irmãos.

Aos 54 anos, este artista especial pinta quadros de paisagens com a boca e, recentemente, começou a utilizar o tablet, tendo já criado uma conta no Facebook.

Utente do CAO (Centro de Atividades Ocupacionais) da Santa Casa da Misericórdia de Vila Verde, recebeu um tablet e “começou a usar sem problemas nenhuns, adaptou-se rápido”, contou a irmão ao Semanário V.

A trabalhar com o tablet, Zé Manel mostra como se usa o Facebook e conta que “pouco a pouco” aprendeu a usar o aparelho eletrónico.

“Tinha 30 anos” quando começou a pintar, disse Zé Manel. Quando chegou ao CAO, descobriram que conseguia pintar com a boca e, depois disso, já fez exposições para a Câmara de Vila Verde e pintou dezenas de quadros.

A irmã confessa que, agora, Zé Manel tem mais dificuldade em pintar, “porque a coluna dele piorou”. A família está neste momento à espera que chegue uma cadeira nova, adaptada às suas necessidades, “mas custa 20 mil euros”.

Fátima Ribeiro conta ao Semanário V que houve um altura que o irmão deixou de pintar, mas após encontrar capacetes próprios para colocar os pincéis, Zé Manel voltou a pintar, apesar de dar mais trabalho em colocar o capacete. “Enquanto antes eles deixavam lá as tintas e ele fazia sozinho, agora tem de ser uma pessoa a ajudar a pôr o capacete”.

Zé Manel diz que é mais fácil pintar com a boca e explica que as pinturas demoram tempos relativos a terminar. Há quadros feitos com tinta de água, que diz demorar “menos a secar” do que os de tinta a óleo, “que demora uma semana a secar e o quadro nunca está acabado”.

A coluna de Zé Manel paralisou. “Ele tinha de ser aberto para endireitar a coluna, mas era muito perigoso e os médicos disseram que podia ficar ainda pior”, desabafou Fátima.

A irmã explica que “o cérebro foi afetado, mas a mente não e toda a gente fica admirada”. No entanto, também confessa que, por vezes, as pessoas se esquecem que Zé Manel não tem qualquer atraso intelectual.

A deficiência na fala e a incoordenação dos movimentos e equilíbrio podem fazer aparentar um atraso mental que na realidade não existe.

Fátima Ribeiro conta uma história que se passou com o irmão, quando foi questionado por um juiz sobre o valor do dinheiro. “Ele perguntou quanto era uma nota e o meu irmão disse que eram 5 euros. O juiz perguntou se dava para tomar o pequeno-almoço com aquele dinheiro e ele disse ‘isso depende do sítio onde for tomar o pequeno-almoço’. Depois apresentou-se uma nota de 20 euros e disse que dava para comprar um carro e o Zé Manel disse-lhe que dava para comprar uma câmara de ar para a bicicleta”.

“As pessoas às vezes esquecem-se que ele não tem deficiência mental e acham que ele não percebe algumas bocas que mandam e fica chateado”, contou a irmã.

Fátima explica que o irmão ia para as colónias de férias e, a certa altura, queriam colocá-lo numa instituição de pacientes com deficiência mental, mas recusou, “porque ele não era deficiente mental, era só motora”. Quando abriu o CAO, Zé Manel entrou como utente. “A Misericórdia tem excelentes profissionais e ele gosta daquilo”, desabafou Fátima.

Zé Manel já foi a França, ao Luxemburgo e todos os anos ia para a praia. Fátima confessa que, dentro das limitações a que está sujeito, Zé Manel “gozou a vida dele”.

Fotos: Luís Ribeiro / Semanário V

 

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