Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. Prometo não falhar – sobre a Dor e a humanidade na Medicina

Redação
Escrito por Redação

Nada descreve a complexidade da Medicina como a frase de Samuel Beckett “Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor.”.

O trabalho do médico é o de prometer não falhar. Nas expectativas que cria, nas recomendações que formula, na explicação de fenómenos difíceis de explicar.

O tratamento da pessoa com Dor será, porventura, aquele que na Medicina moderna se reveste de maior grau de promessa e de envolvimento com a situação daquele que sofre. E nunca podemos esquecer que a primeira e última tarefa do médico é a de aliviar o sofrimento. Este é o cerne da profissão médica e também o seu maior desafio.

Na Dor Crónica o sofrimento vai muito além da dor “física”. É o sofrimento da procura de respostas, de empatia, de compaixão por uma entidade muitas vezes mal compreendida. Todas as semanas vemos pessoas que sofrem com Dor cuja maior preocupação, após anos e anos de sofrimento é a de terem um entendimento da sua doença e a certeza de que não são culpados de estarem doentes.

Quando explicamos a uma pessoa que sofre com Dor há largos anos que há um caminho para além do sofrimento, que é possível compreender a Dor e lutar contra ela, sentimos o alívio na pessoa que sofre. O alívio de saber que não está sozinha e que, embora tortuoso, há um percurso que pode ser feito em direção ao alívio desta provação. E é neste momento que se dá o ponto de viragem no tratamento da pessoa com Dor. Porque nunca podemos desistir, nunca podemos deixar de acreditar que é nossa função fazer a diferença para quem vive todos os dias em martírio.

Numa medicina tecnológica, que evolui a um ritmo difícil de acompanhar, terá de se manter sempre o ponto de contacto com os pais da Medicina – aliviar o sofrimento de quem sofre. Ouvir, perceber, explicar, orientar e nunca deixar de ser o farol para aqueles que precisam de ajuda.

Talvez, em dado momento, o entusiasmo com a tecnologia tenha levado a medicina para um lugar demasiado distante daqueles que dela precisam. Mas este erro no caminho está identificado, sendo hoje consensual que é necessário praticar uma medicina cada vez mais humanizada, personalizada e empática.

Se é verdade que a tecnologia faz cada vez mais diagnósticos e propõe cada vez melhores tratamentos, também é indiscutível que a verdadeira medicina se faz olhando nos olhos de quem sofre. Temos de saber integrar o conhecimento técnico com o conhecimento humano.

Só assim poderemos prometer não falhar.

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