Braga

À Conversa com… Ana Rita Rego, Atleta, treinadora, empreendedora, co-directora da Jing-She

Fazer esta entrevista foi especial. Creio que perceberás porquê.

Andreia Santos: Conheço-te desde há muito e estou orgulhosa do teu percurso. Fala-nos um bocadinho dele.

Ana Rita Rego: Obrigada pelo carinho e por este incrível convite. Conhecemo-nos em 2000, no início do nosso percurso de estudantes da licenciatura em Psicologia na UM… Aos 15 anos tinha começado a estudar guitarra clássica e cheguei a pensar que a música seria um caminho possível. Canto desde que tenho memória, faz parte mim. A vontade de estudar Psicologia surgiu por influência (não intencional) da minha mãe, professora de yoga (que pratiquei vários anos) e terapeuta. No entanto, as minhas paixões eram tão diversificadas que tenho a perfeita noção de que poderia ter seguido outros percursos. Por essa altura, fazia voluntariado na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal. Uma época que me marcou para sempre. Tornou-me mais consciente de quem eu queria ser e de como me queria relacionar, por exemplo, com a alimentação. Durante a universidade, tive oportunidade de ir a Lisboa fazer um curso de Bem-Estar Animal, e na altura, parecia-me a área a seguir. Voltei a dançar. Após o estágio de 5º ano, em psicologia clínica, dediquei o verão a um curso de dança intensivo, com o sonho de ir estudar dança para Londres. Uma fractura do menisco veio ditar o caminho que me trouxe até hoje. Conheci o treinador Alexandre Oliveira, e comecei a treinar Taijiquan (ou tai chi chuan) como forma de recuperar o meu joelho e praticar um desporto que tinha muito em comum com tudo o que eu tinha feito. O treino físico necessário, a fluidez do movimento, a aplicação marcial. Descobri todo um novo mundo de possibilidades, numa fase em que sentia desiludida. Foi o princípio de um percurso que eu não tinha sequer imaginado! Em 2008, achamos que fazia sentido criar uma entidade focada nas Artes Marciais Chinesas, e constituímos a Associação Jing-She. Continuei a investir na minha formação na área, em Portugal e na China. Em 2015 integrei a primeira Seleção Nacional de Qigong da Federação Portuguesa de Artes Marciais Chinesas e nunca parei de competir internacionalmente.

A.S.: Isso é extraordinário. Gostava de perceber se a Psicologia te influencia na escola?

A.R.: As áreas cruzam-se e estão presentes em cada passo. Seja na relação com os alunos, com os pais ou com a gestão do nosso trabalho. Quando lidas com percursos de vida, carreiras desportivas, e principalmente com a formação de pessoas para a vida, a psicologia e o desporto, que são as nossas áreas de formação, são ferramentas fundamentais. As responsabilidades de educar e formar tornaram-me mais assertiva na relação com os outros, até com o público que nos procura. E um projecto com bases sólidas, só se constrói com consistência.

A.S.: Continuas muito humana, a viver os teus ideais na escola…

A.R.: Há princípios, e ideais como referes, que são absolutamente fundamentais para mim e para o Alexandre. Fazemos questão de os repetir, nas aulas, em conversas informais na escola, com crianças e adultos. O respeito pelas características únicas de cada pessoa. Na nossa escola não há espaço para o preconceito ou para o “apontar o dedo” àquilo que nos é estranho ou que não compreendemos. O respeito pelo timing de cada um – o ver cada aluno, cada atleta, como um indivíduo independente, único. Claro que há conteúdos e áreas que se trabalham em conjunto, mas o percurso de cada atleta é trabalhado em especificidade. Só assim se consegue o crescimento de todos. E o princípio de que todos terão oportunidade de ser quem eles sonharem ser. E para isso, há uma parte do nosso trabalho que nem sempre é compreendida inteiramente – nenhuma oportunidade de educar, formar, e fazer crescer é desperdiçada.

A.S.: Que atividades desenvolvem?

A.R.: Trabalhamos com crianças a partir dos 3 anos, na iniciação ao Wushu Kungfu com a possibilidade de aprenderam e desenvolverem um percurso desportivo e com jovens e adultos sem limite de idade. Para além das aulas de Wushu Kungfu para todas as idades, leccionamos as disciplinas específicas de Sandá (boxe chinês), Taijiquan, Defesa Pessoal, e Qigong (ou chi kung). Na escola temos também um departamento de saúde, o Jing-She Lab, que integra profissionais da área da Nutrição, Nutrição Desportiva, Naturopatia, terapias integrativas e massagem terapêutica. Uma componente que nos abre à comunidade também, é o Serviço Educativo da Jing-She, criado em 2010 – um espaço que pretende aproximar a comunidade, da cultura chinesa – dos seus rituais e práticas marciais milenares – e assim contribuir para uma sociedade multicultural, mais rica e tolerante. Em 2017, a Jing-She abraçou mais um projecto de extrema relevância, cumprindo a sua missão de responsabilidade social através do Wushu, assinando protocolo com o Município de Famalicão. A cota social para jovens desfavorecidos é uma medida que pretende integrar crianças e jovens até aos 18 anos de idade, sem condições financeiras e socialmente vulneráveis, nas atividades desportivas promovidas por clubes do concelho.

A.S.: Qual é a  tua missão fundamental?

A.R.: A minha missão está em constante mudança. Na verdade, é assim que encaro a vida. Não me consigo imaginar a seguir uma estrada em linha recta. Acho que o meu percurso mostra isso. Sou constantemente desafiada para me voltar para áreas e projectos muito distintos, e quero cada vez mais ter a coragem de os aceitar a todos. Também isso está em construção em mim. Mas, talvez possa resumir a minha missão como o sentido de partilha, sem arrogância, das aprendizagens que vou fazendo com o que me acontece. Este ano posso dizer que aprendi, de facto, a transformar eventos menos bons em crescimento pessoal.

A.S.: Qual foi a melhor viagem em competição?

A.R.:O que é comum às viagens, é que elas são “a trabalho”. Ou seja, vamos focados nos objectivos. Em competição há imensos horários a cumprir, e com sorte, podemos ter a possibilidade de visitar um pouco. Acho que me é difícil escolher uma, mas talvez uma das que mais marcou tenha sido a última, no passado mês de Agosto. A mais longínqua que fiz, a Melbourne, na Austrália, a propósito da minha participação no mundial de health qigong. Emociona-me saber que represento oficialmente Portugal e sinto o peso dessa responsabilidade. Em Portugal há tanto valor, somos lutadores.

A.S.: Que prémios trouxeste para casa?

A.R.: Em competição, 4 ouros em campeonatos da europa (França 2016 e Inglaterra 2018), 2 ouros em mundiais (Holanda 2017 e Portugal 2015), 3 Pratas em mundiais  (Austrália 2019 e Portugal 2015) e 1 Bronze (Austrália 2019). Este ano venci o prémio de júri “O Minhoto”. Fui três vezes atleta feminina do ano da Federação Portuguesa de Artes Marciais Chinesas (2015, 2017, 2018), e distinguida diversas vezes na Gala do Desporto nacional da Confederação do Desporto de Portugal, na Gala do Desporto de Famalicão e na Gala do Desporto de Barcelos.

A.S.: O que é que se sente quando se ganha?

A.R.: O sentimento é de missão cumprida. E para mim, o momento mais especial é quando termina a minha prova e estou consciente de que fiz tudo a que me propus. E o orgulho do meu treinador, não tem preço.

A.S.: Que dirias aos atletas?

A.R.: diria que não tenham receio de falar sobre os vossos sonhos. E se eles não forem ouvidos, procurem as pessoas certas, as que vos vão ouvir e encontrar forma de dar seguimento às vossas aspirações. Tive muitos momentos ao longo do meu percurso, em que as pessoas que estavam ao meu lado não ouviram ou não quiseram ouvir os meus sonhos…

A.S.: O que te falta viver?

A.R.: Gostaria de ver a escola crescer ainda mais, e de ver concretizadas as conquistas que eu sei que os nossos alunos e atletas têm capacidade para alcançar. Tenho muitas vezes a sensação que nós, professores, treinadores, conseguimos visualizar muito mais do que eles próprios. E sonhamos todo o sucesso para eles. Vê-los realizados e à altura das suas infinitas capacidades. Quanto a mim, estou muito curiosa para ver o que vem após dizer sim a todos os desafios que cada vez mais chegam até mim. Este ano de 2019 vai ficar, tenho a certeza, definido como um marco na minha história. E o início de uma vida ainda mais consciente em que me sinto mais forte.

Muito obrigada, Andreia.

Eu é que lhe agradeço do fundo do coração a inspiração. Creio que não preciso de dizer mais a não ser que esta PESSOA faz o mundo melhor.

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