Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. Chegar a tempo do inesperado – sobre a paixão na Medicina

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Escrito por Redação

“Declara o passado, diagnostica o presente, prevê o futuro”, disse Hipócrates. Estive recentemente no Congresso Europeu de Dor onde alguns dos maiores especialistas mundiais apresentaram o “estado da arte” na Medicina da Dor. Discutiram-se os grandes avanços, tanto a nível da investigação que ainda demorará alguns anos a chegar a todos nós como no que diz respeito aos procedimentos que estão, hoje, a revolucionar o tratamento da dor.

Mas, curiosamente, um dos temas que mais se debateu foi talvez aquele que maior subjetividade traz à discussão – a medicina centrada na pessoa. E isto levou-me a pensar sobre a paixão na Medicina.

A profissão médica, durante muitos anos considerada uma arte, pela beleza intelectual da construção de um diagnóstico com pouquíssimos meios, transformou-se, paulatinamente, numa cientificocracia que tem méritos e deméritos.

A ciência baseada no doente médio, na pessoa média esquece, se for mal interpretada, a individualidade de cada um de nós. A integração do conhecimento acerca das médias (a idade média da doença, a evolução média da doença, etc) na vida de cada um de nós será a grande arte da Medicina moderna.

Sem ciência não se faz medicina. Sem a individualidade de cada um de nós também não.

E isto leva-nos ao grande debate da paixão pela Medicina – afinal qual é a importância de o médico ser apaixonado pelo que faz? A resposta é simples: se o médico não for apaixonado pelo que faz, será muito mais difícil que crie a empatia necessária ao fortalecimento do componente humano. E, sem componente humano, só vemos as médias e não a pessoa que temos à nossa frente. A pessoa que é única e tem de ser tratada como tal. Sem componente humano fazemos medicina centrada nas médias e não nas pessoas.

O fator humano, o conhecimento do outro, a capacidade de ouvir e perguntar na altura certa são a arma para chegar a tempo do inesperado.

Porque, na medicina, quase sempre, estamos atrasados. Mesmo quando estamos a prevenir doenças, já existem, muitas vezes, mil e um fatores que desconhecemos que prejudicam a prevenção. Quando estamos a tratar, chegamos por vezes tarde à terapêutica mais adequada para aquela pessoa. O inesperado encontra-nos todos os dias.

Temos, absolutamente, de chegar a tempo do inesperado. E, nesse momento, acreditar que o tempo fica suspenso para se poder criar a arte da medicina e fazer a diferença na vida daquela pessoa. Olhos nos olhos.

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