Destaque Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. Sobre a (im)perfeição humana e os olhos que se escondem I

Redação
Escrito por Redação

“Quem conhece a dor conhece tudo”, Dante Alighieri. Na Divina Comédia de Dante conta-se a história de um homem que percorre um universo circular em que visita os recantos de sofrimento do inferno, o purgatório e, enfim, o paraíso.

Avassaladora no retrato da realidade da época, esta é uma obra que, sem nos apercebermos, gravita no nosso ideário e a partir da qual se inspiraram inúmeras histórias contemporâneas.

Dia de consulta. Estudo o processo da próxima pessoa a chamar. Atrasado porque não consigo pedir a quem me relata a alegria de poder pegar no neto pela primeira vez em vários anos que pare de falar. Atrasado porque não consigo interromper quem me diz que quer continuar a tentar mesmo quando já fez mais tratamentos do que tinha vontade sem ver a melhoria que necessita para continuar a acreditar.

Enfim, atrasado e desapontado pelo que correu menos bem. Feliz pelo que consegui ajudar a solucionar. Cada consulta de dor é uma viagem, por vezes a sítios negros, de sofrimento contido, de coragem para não parar de lutar. É sempre diferente e sempre igual.

Começo a última consulta. Não preciso de falar. Vejo as lágrimas a correr na face. O desespero ultrapassou o sofrimento, embrulhou-o e transformou-o.

Os olhos escondem-se, encolhem-se, procuram o conforto num recanto de luz. Não é preciso falar. Percebe-se no rosto o pedido de ajuda que cresce a cada segundo, já não envergonhado, mas desesperado.

Inspiro. Ouço. Antes digo apenas “Conte-me.”

Expiro. Converso. Tento perceber os aspetos técnicos dos tratamentos anteriores.

Falamos da família. Dos filhos, já adultos, que desistiram de compreender uma dor que ninguém parece conseguir tratar. Sinto que há alguma coisa que falta contar, que me falta ouvir para poder compreender a causa das coisas.

Até lá, até descobrir o pormenor que pode virar o jogo só há uma coisa para fazer: devolver a esperança. Não me canso de dizer, de escrever – sempre olhos nos olhos.

[Continua na próxima semana]

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