Destaque Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. Sobre a (im)perfeição humana e os olhos que se escondem II

Redação
Escrito por Redação

“O mundo é cego, e tu vens exatamente dele”, Dante Alighieri, Divina Comédia.

Última consulta do dia. Lá fora, anoitece. Penso no Lobo Antunes e no “Não entres tão depressa nessa noite escura”. Muitas vezes é a única coisa que consigo pedir às pessoas que vejo na consulta.

Já falamos da família, dos tratamentos, das incontáveis sentenças de incurabilidade de uma dor que ainda nem sequer foi compreendida por quem dela sofre.

As lágrimas esconderam-se no chão, os olhos procuraram a sombra. A consulta ficou num impasse. Como a tempestade que parece ter desistido para depois voltar e arrasar o que já estava caído por terra, cruel.

Volto atrás. Pego no primeiro dia, no primeiro mês, em que a dor se transformou, ganhou vida própria e decidiu controlar a vida desta pessoa. Revivemos, juntos, a transformação do sintoma em doença.

Finalmente, percebo porque a dor ficou esquecida. Uma depressão violentíssima toldou tudo e todos. Múltiplos medicamentos, internamentos. Procuras incessantes de novos tratamentos.

A depressão piorava à medida que a dor progredia. Já não se sabia onde estava o princípio e o fim. Após muito tempo, muitas tentativas, os tratamentos acabaram por atenuar a tristeza profunda. Mas a dor permaneceu.

E já ninguém tinha energia para ajudar. Já ninguém acreditava nesta dor.

Lá fora, chove. Perdidos no labirinto do saber ficamos, os médicos, como a criança que vai à praia pela primeira vez. Perdidos. É aí que nos definimos, que temos de fazer a diferença.

Pergunto apenas: “Vamos à luta?”

Parou de chover. Os olhos sobem, o rosto abre-se. É este o momento definidor. Um de muitos passos em direção ao controlo da dor, do sofrimento.

Há pessoas que quando passam, ficam. Outras passam, só. Ao médico, cabe passar e ficar. Deixar uma marca de humanidade em todos os que o procuram. Esta é a medicina que precisamos, olhos nos olhos.

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