Braga Destaque

À Conversa com… Liliane Machado, Jornalista

Liliane Machado, Jornalista
Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

“Braga é a minha cidade”

Encontrei-me com a Liliane Sábado passado, feríado português importante em que não estaríamos a trabalhar. Marcamos encontro num dos cafés mais antigos da cidade, n’ A Brasileira. Eu sou portuguesa, a Liliane do Brasil, a conversa foi entre mulheres mais parecidas que diferentes…

Andreia Santos: Como tem sido a vida em Portugal? (Risos)

Liliane Machado: Oi Andreia… (com sorriso aberto, o olhar a brilhar e muita responsividade, fez uma pausa na emoção e prosseguiu com sotaque muito característico de Rio Grande do Sul): primeiro que tudo queria-te agradecer o convite e também por essa visão de querer conhecer a realidade da comunidade brasileira em Portugal… Eu não tenho queixas, tem sido muito bom.

A.S.: Como foi a adaptação a Braga?

L.M.: “A gente já chegou adaptado” (risos). Em 2016 vim com meu marido passear a Braga, ficamos na casa de um casal amigo. Adorei a cidade. Me apaixonei pelo Parque da Ponte e é curioso que hoje a nossa varanda tem vista para lá. Queríamos há muito ter uma experiência fora, quando saímos dos nossos últimos empregos decidimos estudar essa possibilidade. Fizemos um ano de planeamento da vinda para cá, sem contar a ninguém. Vimos vários vídeos da cidade, do estilo de vida no youtube… até que um dia, num desses vídeos uma música de fundo apareceu como um sinal, uma banda portuguesa Deolinda dizia “vai ser tudo o que tem que ser…” Vendemos tudo e tiramos visto a 21 de Setembro, fez há pouco um ano. Passou muito rápido, tenho a sensação de pertença a Braga, já defendo Braga, Braga é a minha cidade. Vim para estudar, havia um mestrado que queria tirar na área da comunicação e cá também… O universo conspirou (risos).

A.S.: Pareces feliz. Mas também és assim, expansiva. Aberta. Já conheces muita gente…

L.M.: Ah tem gente que se fecha, eu acho que também temos que fazer para nos integrarmos… No início, eu ia a tudo. Daí que nós nos conhecemos naquele evento lá na Biblioteca…

A.S.: O Sparkle Your Christmas, na Lucio Craveiro…

L.M.: Eu ia a todos. A minha mãe foi sempre muito positiva, acho que isso veio dela… o otimismo, a gente sempre aprende mesmo quando algo pode não estar tão bem, importante é andar em frente…

A.S.: Quais são algumas das diferenças que mais sentes?

L.M.: Acho que até somos muito parecidos em muita coisa, mas há aspetos em que sinto a maior diferença, por exemplo a sensação de segurança… Eu nunca fui assaltada no Brasil, sou do interior… A primeira vez que saí da Universidade era noite fui a pé, pensei, será que vou? No outro dia a ir para o Porto dei por mim inconscientemente a colocar a minha mochila na frente, na barriga… depois percebi o que estava a fazer, aqui não é preciso, ninguém vai abrir a tua mochila, tirar alguma coisa…

Outra coisa que é diferente e que foi um choque é que aqui se vê pessoas fumando na rua, no Brasil é meio clandestino, houve durante muito tempo uma campanha muito severa com média, escolas, … para acabar com o cigarro. Eles são vendidos, mas ficam na parte escondida das prateleiras…

A.S.: Irá acabar essa permissão…

L.M.: Ah… as pessoas falavam que iamos sentir muito frio… não senti nada. Sei que aqui chove mais…

A.S.: Vieram para ficar? (Risos)

L.M.: Nunca gostei de planos a muito longo prazo, deixo a vida me levar… Nisso, eu e o meu marido dá muito certo. Quando terminar o mestrado nós recalculamos a rota e vemos, como o GPS (Risos). Quem sabe? Falta um ano de mestrado…

A.S.: Está a correr bem?

L.M.: Muito bem. Acho muito mais exigente que lá e isso é bom.

Se for para ficar cá, a única coisa que quero é trazer a minha mãe. Ela morava connosco. É uma das coisas que custa, dá saudades. Por outro lado estar aqui é bom. Para um Brasileiro viajar pela Europa é um evento grandioso, estando aqui é bem mais fácil.

Liliane Machado, Jornalista

A.S.: Que dirias a quem quer vir para cá?

L.M.: Se der, para visitar antes. Para preparar.

A.S.: O que falta para a comunidade Brasileira se sentir bem em Portugal?

L.M.: Ah, apesar de culturalmente muito parecidos, sinto que há diferenças que temos que entender: português é mais direto e o brasileiro mais enrolão. Alguns brasileiros acham o português grosso e os portugueses querem que os brasileiros digam logo mo que pensam sem rodeios. É muito importante entender essas diferenças. Eu estou aprendendo a ser mais direta.

Por outro lado, acho que falta a quem imigra maior consciencia da responsabilidade da sua escolha, seja quem for, brasileiros ou outros que queiram mudar de país… No outro dia fiquei p… da vida com o título numa revista: “Quando o sonho se transforma em pesadelo”… Não podemos generalizar a experiência, mas chegar cá, ficar sem dinheiro, não fazer nada para dar certo e esperar o país fazer não dá… A culpa é do país ou dela? Por vezes falta isso, a ideia de que tem que fazer acontecer!

A.S.: Agora vais para o Porto todos os dias…

L.M.: Ah amo o Porto. Adoro Portugal. Mas mais do Norte, as pessoas têm uma coisa boa no Norte: se passar muitas vezes por elas, passado algum tempo já sorriem…

A.S.: É mesmo verdade… (risos). Como está a correr o estágio no Porto Canal?

L.M.: O estágio está a ser muito bom, acho que tenho muita sorte…as pessoas falam, interagem, entregam para fazer… o estagiário às vezes não pode fazer… eu faço, posso. O Júlio Magalhães é muito bacana. Lá em Blumenau, onde trabalhava, o diretor só passava por nós quando precisava… aqui é diferente. Estava com muitas saudades da redação. Desde 2016 que saí da Tv e tinha ido para assessoria de comunicação para política. Este ano cá podia optar, ou estágio ou investigação. Decidi que queria entender como é cá. Sou apaixonada por conteúdo, vídeo, redes sociais…

A.S.: Porquê o Jornalismo?

L.M.: Desde pequena que sempre fui mais de trabalhar que de estudar, ao contrário da minha irmã. Podia ter seguido Psicologia, como ela, mas depois fui para Jornalismo. Sempre fingia que estava apresentando jornal. Nunca tive vergonha, sempre que era preciso falar com alguém, convencer, entender…ia eu… Comecei por trabalhar, porque aos 17 anos o meu pai mudou de emprego para o interior de São Paulo e nós saímos de Cruz Alta… Num dos meus empregos, numa loja de sapatos, dei a ideia de patrocinarmos um programa e aí era preciso ir todos os meses apresentar as novidades da loja à TV, a dona era mais reservada, era eu que ia…

A.S.: O universo já conspirava…

L.M.: O que havia eu fazia… É importante não desistir. Fazer acontecer é lutar pelo que queremos.

A.S.: Alguns sonhos para o futuro…

L.M.: Estou a tentar aprender cá para aplicar, ainda a amadurecer o que sempre quis. Estou no Porto Canal em estágio. Há um outro projeto do qual faço parte, o MKT Yourself, com a Oficina das Palavras. O primeiro evento foi na semana passada e correu muito bem.

A.S.: Que livro estás a ler?

L.M.: Ah… eu não trouxe nada do Brasil… Para além de coisas de afetividade: uma xícara, uma colher de pau e 4 a 5 livros. Quando comecei a andar de comboio peguei num deles: de duas escritoras da cidade em que morei. “O Caso dos Ossos”, faz-me voltar a Blumenau.

A.S.: Quem é a Liliane? (Risos)

L.M.: (Risos) Uma pessoa feliz, acho até que antes de feliz alegre… Tem dias que estou mais quieta, mas até acham estranho quando não estou alegre. Sou bem humorada, gosto de descobrir as coisas, de caminhar muito, de ir até la´…

A.S.: Alguém que arrisca?

L.M.: Como dizia Alexandre Gonçalves, meu professor e mentor, o não a gente já tem…

A Liliane é da cidade do escritor Érico Veríssimo, tem um percurso extraordinário de enamoramento por tudo o que a vida lhe traz. Foi tão bom passar a tarde com ela e viajar com o que me contou que é muito além do que podes ler… Disse-lhe que talvez tenha sorte, mas acima de tudo merce o que lhe acontece. Regressei a casa com muita gratidão. Obrigada Lili.

Liliane Machado, Jornalista

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Andreia Santos

Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional

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