Andreia Santos Opinião

Opinião. Fé

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

Por várias vezes estive presente em palestras ou talks sobre o tema das conexões humanas, quer seja para contextos mais livres, em que os participantes não se enquadram em nenhum grupo social específico, quer em lugares em que existia uma área profissional ou de facto grupo associado. Gosto em especial de falar para estudantes sobre este assunto e digo-te porquê: acredito muito na nossa capacidade para desenvolver o melhor de nós e quando estou perante jovens a quem os dias de amanhã, em quaisquer esfera da vida, pertencem, sabe-me bem poder confirmar que todos nascemos com esperança nisso. Muitas vezes existe um agradecimento pela minha contribuição, mas, o que posso dizer realmente é que são eles quem me inspira a continuar. (Confesso-te: em muitas circunstâncias preciso de me lembrar porque escolhi e comecei a fazer o que faço e este público em especial ajuda muito a recordar-me de mim). Hoje quero falar-te sobre cinismo.

Hoje por cinismo entende-se o sentimento de orgulho que algumas pessoas sentem em ser cépticas e ter a capacidade de desconfiar dos motivos ou intenções das outras pessoas. São cínicos todos os que se auto-proclamam inteligentes por não acreditar, por ver o pior nos outros. Ora… há muito tempo que penso sobre as consequências da forma como cada um de nós olha para o mundo nas nossas ações, não apenas desde que sou psicóloga ou coach, apesar de ser para mim evidente que não viveria com integridade se fosse cinica. Percebes o que te digo? A nossa visão de confiar ou desconfiar do mundo claramente conduz a diferentes atitudes. (Confesso-te outra vez, embora já o tenhas percebido: os cínicos são pessoas que eu aceito, mas com quem não gosto nada de conviver, pertencem à categoria das pessoas oposta à minha, perdoa-me a rudeza. Humanamente falando, não serei contra ninguém, compreendo o que leva ao quê e consigo usar de compaixão. Profissionalmente empenho-me para ajudar na remoção dos sintomas dos cínicos. Mas numa dimensão mais íntima de amizade ou companheirismo ou parceria tento não conviver com as pessoas que gostam de destruir a vontade das outras de melhorar. Isso não cabe em mim).

Não te estou a falar de ingenuidade, mas de liberdade. E o que é que ser livre tem que ver com acreditar? Tudo. Se estamos sem medo, podemos dar e como te disse ser melhores pessoas para todos. O mundo está cheio de coisas más e não preciso de te nomear as desgraças que existem para resolver… mas sem esperança não vamos lá. Cada um de nós pode fazer mais. E tem o poder de alterar tudo para sempre. Algumas análises transculturais permitem transpor a seguinte realidade: indivíduos menos competentes são incondicionalmente cínicos, usando esta perspetiva como estratégia adaptativa para evitar ser vítimas de outros. Ao contrário, indíviduos mais competentes não eram particularmente desconfiados dos outros, tinham atitudes contingentes com o desempenho real das pessoas. “Cynism isn´t as smart as we think it is.” (Livini, 2018).

Tenho refletido muito sobre as relações entre as pessoas, as amizades, sobre o modo como elas nos constroiem ou destroiem: “as pessoas por quem te rodeias têm um impacto enorme na tua vida. Modelando o que te vai sucedendo também.” É apenas possível, como te diria Aristóteles, manter um relacionamento se este for baseado na virtude, ou seja, nos valores partilhados, embora possam existir outro tipo de relações baseadas no prazer ou utilidade. As relações verdadeiras dão trabalho e requerem esforços, mas trazem um sentimento real e profundo de satisfação com a vida. (Stulberg, 2017). (Não existem aplicações tecnológicas que substituam as partilhas presenciais humanas. Não foi por caso que o instagram já removeu a palavra amigo da sua rede social). Porém, sem confiança ou com medo nada disto é possível. Sem maturidade emocional. Estas serão as ligações mais raras que temos, as únicas em que há mesmo amor. Tudo o resto termina. Não conseguimos amizade de um cínico. Para além de que ele/ela te dirão que nada vale a pena…

Alguns seres humanos gostariam que tudo fosse diferente daquilo que é, sofrem, por isso não conseguem ainda ser senão egoístas… “Os melhores anos da tua vida são aqueles em que decides que os teus problemas são teus e páras de culpar a tua mãe, a ecologia, o presidente…, percebendo que podes controlar o teu próprio destino.” (Albert Ellis).

Há pouco tempo estive numa conferência, enquanto espetadora, sobre o planeta. Um dos oradores principais concluiu: se o comportamento individual das pessoas nas cidades se alterar conseguiremos salvar a casa em que habitamos. Então? Podemos? Vamos lá? Não deixes por favor que a outra parte pequenina do mundo destrua a fé que há em ti. Até já de coração aberto

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Acerca do autor

Andreia Santos

Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional

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