Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. Numa noite qualquer, conta-me quando vai nascer o sol – Histórias de fim de vida

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Escrito por Redação

“É feliz apenas aquele que dá”, Goethe. Em Fausto Goethe relata-nos de forma suprema uma história de uma aposta de um demónio, Mefistófeles, com Deus. Se Mefistófeles conseguir criar uma situação de felicidade tão plena que faça com que Fausto deseje que aquele momento dure para sempre, poderá tomar a sua alma para o Inferno.

Estive, muito recentemente, numa reunião onde alguns dos maiores especialistas do mundo em dor apresentaram situações de elevada complexidade quer clínica, quer humana. À primeira vista, poder-se-ia pensar que nestas reuniões se apresentam as técnicas de tratamento mais modernas, os medicamentos mais inovadores. É verdade que isso também é feito, mas o que mais se discute na abordagem da dor é o fator humano. Saber de que forma podemos, enquanto médicos, dar mais, prevenir melhor, chegar da forma mais humana possível às pessoas que sofrem com dor é o grande desafio.

Um dos casos clínicos mais discutidos foi o de uma mulher jovem com uma doença terminal e que, após tratamentos especialmente agressivos para tentar controlar a sua doença, se encontrava internada com dor que chegava a ser excruciante em grande parte do dia. Este era um caso particularmente comovente por ser perceber que as várias equipas médicas que tinham acompanhado a doente tinham ido até ao fim do mundo para procurar uma cura.

A discussão clínica tomou conta da plateia. Propuseram-se técnicas avançadas de controlo de dor, utilização de medicamentos de nicho. Fez-se a revisão do que teria corrido menos bem ao longo de todo o processo de tratamento da dor desta mulher. O consenso teimava em não aparecer.

Até que alguém, que ainda não tinha intervindo, fez a pergunta que faltava: “Quanto tempo tem esta mulher?”. O burburinho da discussão parou por momentos. Parecia que ninguém tinha pensado nisto. Rapidamente, houve concordância por partes dos que antes estavam discordantes no pensamento.

O aproximar do fim da vida, muitas vezes com contacto próximo com o sofrimento, tem de nos fazer pensar nas medidas médicas a tomar com serenidade e compaixão. A empatia com aquele que sofre e com os que o rodeiam é o primeiro dever do médico, antes de todos os tratamentos de vanguarda.

Esta é a aposta de quem sofre. A aposta de que as perguntas certas vão ser feitas na altura certa. E que as respostas serão adequadas, proporcionais, humanas.

Também nós, todos nós, apostamos. Apostamos a incerteza de um caminho que nos levará, pensamos, a onde queremos chegar. O médico, esse, aposta com Mefistófeles que vai dar – agora e não depois – o melhor tratamento para quem está no fim do seu caminho. Porque, quando o sol se puser e as lágrimas caírem, a aposta terá de estar ganha, seja esta noite ou outra noite qualquer.

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