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Professor de História dedica-se a apanhar beatas de cigarro no concelho de Braga

Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

Carlos Dobreira é docente de Educação Especial e de História, conhecido praticante de plogging e desafia, ativamente, a sociedade a praticar esta atividade que alia a prática de jogging com a apanha de lixo.

Desde o dia 3 de junho, durante 63 horas e 76 minutos, recolheu 18.000 beatas de cigarro e 800 litros de resíduos recicláveis e lixo indiferenciado, assim como 5 placas de contraplacado, 1 placa de fogão e até 1 monitor.

Natural de Luanda, em Angola, vive em Palmeira, mas as suas raízes familiares estão na Serra da Estrela. Em Braga, tem vindo a realizar inúmeras ações de plogging, tendo já alargado estas sessões a outros locais do país.

Ao Semanário V, Carlos Dobreira explicou que o objetivo destas ações é “sensibilizar a sociedade portuguesa para a necessidade de alterar a sua postura em relação à Mãe-Natureza, respeitando-a”. “Demonstrar a incapacidade das autarquias em mobilizar a sociedade para a redução da pegada ecológica” é outra grande finalidade destas ações.

Há cerca de dois anos começou esta caminhada no combate à “falta de civismo observada em escolas, juntas de freguesia, câmaras municipais, santuários e património classificado”. Apaixonado pelo Património Cultural do concelho, iniciou a 3 de junho deste ano várias ações de plogging no norte e centro de Portugal continental.

“Não acredites nos políticos!”

Carlos Dobreira deu o nome de “Não acredites nos políticos!” a uma das mais recentes ações de plogging que realizou em Braga. “Essa ação decorre no concelho de Braga mas podia ser realizada em qualquer concelho do país. Como cidadão, já não acredito nos políticos em geral”.

O professor considera que “os políticos” deixam “muito a desejar” no que concerne à política ambiental e “uma das provas está na recolha de 340 litros de lixo e 2.079 beatas de cigarro no concelho entre agosto e esta entrevista”, disse, lamentando as “centenas de beatas e resíduos recicláveis” que encontrou este fim de semana “na entrada de vários edifícios públicos onde se encontravam as assembleias de voto”.

“Através do plogging compreendemos o estado em que se encontram as bermas das estradas, as imediações dos santuários e das escolas, as infraestruturas desportivas e até os locais onde trabalham os nossos governantes. E compreendemos os comportamentos da sociedade em geral”, explicou.

Quanto aos políticos, Carlos acredita que “gostam de aparecer em eventos públicos e dos quais resulta uma pegada ecológica impressionante”, exemplificando com os cenários encontrados após a Braga Romana, o São João de Braga, a Noite Branca ou o concerto da Mariza no Bom Jesus.

 

Da mesma forma, considera que o Município “não tem uma política ambiental musculada e não é uma das bandeiras da atual coligação”.

Atualmente, “é inexplicável” os cenários das “imediações dos estabelecimentos de ensino”, como, por exemplo, “em parques de estacionamento, passeios e gradeamentos repletos de lixo, em particular plástico”, disse.

Até ao fim de 2019 estão a decorrer três ações nos concelhos de Braga, Esposende e Ílhavo

“Não acredites nos políticos!”, “Deixe a Apúlia limpa!” e “Deixe a Costa Nova limpa!” são as três ações que Carlos tem em desenvolvimento.

Antes destas, Carlos deu vida à ação “Tens muito que apanhar!”, nas imediações e no Santuário do Bom Jesus, na qual foram recolhidas 10.010 beatas de cigarro e 210 litros de lixo. O Semanário V acompanhou esta ação desde o seu início.

Estas beatas de cigarro vão para o Laboratório da Paisagem (LP), em Guimarães, mas em data a agendar pelo Presidente da República. “O LP aceita a doação de beatas de cigarro para a sua valorização, transformando estes resíduos em estrutura construtiva. E será esse o destino das 18.000 beatas até agora recolhidas e a recolher, aguardando-se a marcação de data mediante disponibilidade de agenda do Presidente da República”.

Estas ações têm sido comunicadas ao Presidente da República, à Comissão Nacional da UNESCO, à AGERE e às autarquias de Braga e de Esposende. Contudo, apenas o Presidente da República tem respondido, bem como a AGERE e a Câmara Municipal de Esposende.

“Braga está a ficar mais suja”

“No dia 29 de setembro, fui votar à Escola Básica 1 da Sé e fiquei chocado com o cheiro a urina em redor da Sé Catedral de Braga e a quantidade de resíduos recicláveis no Campo das Carvalheiras. A cidade está pejada de graffiti e se for caminhar pelas margens dos Rios Este e Cávado ou visitar, por exemplo, os parques de merendas é degradante ver a falta de civismo e, de certa forma, constatar o falhanço da política ambiental”.

Carlos Dobreira considera que é ” fulcral a aposta na promoção da educação ambiental, o fortalecimento da cooperação com a sociedade civil e, por exemplo, a informação diária sobre a qualidade do ambiente sonoro no concelho”.

A realização de ações de plogging em todo o concelho e o envolvimento de escolas nestas ações são medidas que considera importantes para a mudança de mentalidades.

além disso, “apostar menos em festas e festinhas e eventos de show off” é um passo importante a dar. “Quem vive no centro da cidade bimilenar tem direito a ter qualidade de vida”, rematou.

Carlos Dobreira é ainda autor de um dos projetos de investigação mais duradouros após o 25 de abril. Constituído por 11 modalidades de investigação, decorreu entre 1989 e 2010 e está agora em fase de inventariação, publicação e doação. Esse projeto está ligado à história da Vila de São Romão, na Serra da Estrela, honrada com carta de povoamento, em 1106, por D. Teresa e D. Henrique e cujos túmulos se encontram na Sé Catedral de Braga, um dos motivos pelos quais veio estudar para a Universidade do Minho.

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