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Opinião. As palavras que ficam por dizer – dos afetos na Medicina

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Escrito por Redação

“As mãos são as folhas dos gestos”, António Lobo Antunes.

Segunda-feira. Programo o dia, a semana, enquanto passo pela cidade que acorda. Chego cedo ao hospital. Encontro o Francisco no parque. Brinco com a cara de segunda-feira.

Entro. Na sala de espera já se aguardam consultas, exames, entradas para os internamentos. Ainda a pensar numa semana mais comprida que o habitual vou em piloto automático até à máquina de café. São incontáveis os momentos em que este café, sempre o mesmo, no mesmo sítio, me ajudou a pensar, a tomar decisões clínicas difíceis, a respirar antes de dar uma má notícia.

Levanto os olhos. Em volta, vejo que o hospital já acordou – cumprimentos de bom dia, olhos de preocupação resiliente nas famílias dos doentes, empatia na mão que ajuda a encontrar o caminho a quem está perdido num local estranho.

Volto ao café, revejo a agenda e os e-mails que, entretanto, foram chegando. As conversas de fundo intensificam-se a cada instante.

Entretanto, alguém chama por mim. Não reconheço a voz, mas o rosto é familiar. Um casal de doentes que já não via há muitos anos, ela na maca, ele a seu lado. A segurar, não, a agarrar a mão da mulher.  Esperam por uma cirurgia.

Olhar terno, cansado, num brilho difuso de quem não está pronto para o que vai acontecer. Pergunta-me se me lembro dele. “Claro”, respondo e pergunto o que se passa com a esposa. Toca-me no braço como quem pede para o acompanhar até à maca.

Sorrio junto à maca. Sinto que os olhos procuram a minha mão, aliviados por ver uma cara familiar no meio do planeta estranho que é um hospital a trabalhar a todo o vapor. Seguro na mão, escuto os olhos. O sorriso aparece. Pergunto como se sente. Aperta-me a mão com força e diz-me que não sabe. Correm as lágrimas.

Da maca, pergunta-me: “Lembra-se quando me levou à porta do consultório pela mão porque eu mal conseguia andar?” Lembro-me e sorrio. “Sentir a sua mão a amparar-me fez-me acreditar que ia conseguir superar a dor. E hoje, sem contar, vejo-o aqui, tantos anos depois.”

As mãos, o toque, são as palavras que ficam por dizer. São romances inteiros num momento só. De afeto, de empatia. Nos olhos lemos os pensamentos, as dúvidas, os medos. Com as mãos tocamos a alma. E o que pode ser o médico senão aquele que lê o seu semelhante e o toca nos momentos mais difíceis?

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