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Opinião. No barulho da noite vencemos o medo – histórias de fim de vida

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Escrito por Redação

“Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível”, Jean-Arthur Rimbaud.

Dizia Franz Kafka que se que se tivermos de apostar num vencedor da luta de um homem com o mundo devemos sempre escolher o mundo. Neste pequeno pensamento está exposta a fragilidade de tudo o que fazemos perante a avassaladora presença das circunstâncias que nos são externas e que não controlamos.

Assim é na Medicina. Solitária, muitas vezes. Imprecisa, quase sempre.

Chego ao hospital a pensar na terapêutica que teria de ajustar. Temos uma pessoa numa situação complicada de fim de vida, dor de difícil controlo. Ninguém estava preparado: “Ficou doente tão depressa, Dr”, tenho ouvido nos últimos dias. Este eco, de múltiplos internamentos, de muita gente a passar e a não ver o que estava a acontecer, preocupa-me.

Mas hoje o desafio era outro. Estávamos numa situação de fim de linha a nível terapêutico, tudo o que fosse feito a seguir teria de ser especialmente ponderado, pensado e explicado à família. À família porque a pessoa que tínhamos ali já só falava connosco com os olhos. Tristes.

E com estes olhos eu já tinha conversado. Já tinha visto olhos assim muitas vezes. Senti o seu brilho quando me sentei à cabeceira da cama e conversamos sem dizer uma palavra. Não é preciso falar para ouvir.

Encontrei a família. Sentamo-nos, conversamos. Sobre o sofrimento, sobre o medo. O medo tem olhos escuros, enxutos pelo vento gelado. O medo não ouve, não perdoa, não esquece. Muitos receios para esclarecer. Muito para cuidar em quem vai ficar e não quer deixar partir.

Explico o que vamos fazer, o porquê de o fazermos e o que é esperado que aconteça. “Vamos confortar e vamos cuidar até ao último momento”, disse. Vi o alívio permeado por medo.

Talvez seja o medo do barulho da noite que nos assusta. Ou talvez seja o silêncio do momento em que tudo para, das máquinas que se desligam, do quarto que passa a meia luz. Nem a marcha de mil exércitos conseguiria mudar o vazio daquele minuto que começa e não acaba.

E o médico? O médico tem de se lembrar que é humano. Que o sol nasce e também se põe, independentemente da sua vontade. Que o seu trabalho, o seu desígnio, não termina quando a vida acaba. Que o medo não pode vencer. Escrevemos noites sempre que perdemos uma pessoa de quem cuidávamos. Somos dias quando estendemos os braços a quem fica.

 

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