Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. Porque o infinito não tem tempo, todos os minutos contam

Redação
Escrito por Redação

Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem”, Marcel Proust.

Todos os dias ouvimos falar da necessidade de ser rápido na Medicina. Rapidez de diagnósticos, rapidez de tratamento, em todas as patologias.

Olha-se para a doença como um comboio que anda sempre sensivelmente na mesma velocidade e que pode ser abrandado pela nossa intervenção. Esta ideia de doença crónica como sendo progressiva a um ritmo constante é interessante e, duma forma simples, adapta-se a quase todas as principais patologias contemporâneas.

No entanto, na dor o relógio não é sempre igual, o comboio não avança sempre na mesma velocidade. Um estudo recente chegou à conclusão que, em Portugal, demoramos em média 50 meses para diagnosticar uma pessoa com dor crónica. Haverá muitos fatores que contribuem para esta realidade, mas sem dúvida que este comboio tem de ser apanhado mais cedo.

Para além disso, a dor crónica tem crises, tem avanços e recuos, podendo exigir ajustes terapêuticos  frequentes pelo seu carácter flutuante.

Sabemos hoje, para além de qualquer dúvida, que a dor aguda inadequadamente tratada é um factor de risco para o desenvolvimento de dor crónica. Por isso, todos os consensos apontam para um cada vez maior enfoque na capacitação de médicos e de pessoas com dor para o desafio de tratar a dor o mais cedo e eficazmente possível.

Temos observado, na consulta, um impacto pessoal, profissional e familiar muito importantes decorrentes da demora no diagnóstico e consequentemente no tratamento. Este impacto na sociedade tem de ser assumido como um problema de saúde pública, isto é, que toca a todos nós e que precisa de uma resposta robusta.

Todos os minutos contam enquanto não conseguirmos dar uma resposta rápida e eficaz a quem sofre com dor todos os dias. Para que se deixe de ouvir a resposta “Há tanto tempo, que parece infinito…” à pergunta “Há quanto tempo tem dor?”

Precisamos de um novo relógio. Um que pare o tempo até reorganizarmos o sistema para colocar, de uma vez por todas, a pessoa no centro. Medicina com os olhos no detalhe, naquilo que faz de cada pessoa única. Medicina olhos nos olhos.

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