Andreia Santos Opinião

Opinião. Conforto

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

O Outono chegou. Que bom. Com ele trouxe a alegria do conforto. Não sei se sentes esta estação da mesma forma, mas para mim ela é sinónima de recolhimento e ninho. Tenho recebido até alguns presentes do que nesta época volta a aparecer: as compotas e geleias que ficam bem nos pequenos-almoços antes da chuva. Tem chovido, precisamos de água. Em leituras de fim de semana descobri no The Atlantic os “The Friendship Files”. Existem desde Fevereiro, assinados pela autora Julie Beck, (na verdade andei distraída), que confessou que este tem sido o melhor trabalho escrito ao longo da sua carreira de colunista, do ponto de vista da sua satisfação. Estes ficheiros são um registo de vidas humanas através de conversas entre amigos, uma forma de fazer justiça às relações de amizade que normalmente são investigadas em segundo plano quando se estudam as interações e o desenvolvimento pessoal e social. Deixo-te a referência e hoje é sobre isto mesmo que te quero falar. As boas conversas entre amigos também fazem parte do Outono. Tempo que existe para refletir e caminhar para o final do ano com as devidas pausas.

Scott Galloway no seu “Algebra of Happiness” fez as contas e concluiu que investir nos relacionamentos que temos com os outros garante felicidade. Há algum tempo que a ciência tem vindo a confirmar o que a intuição indica: ter amigos realmente protege e cura. Buettner, argumenta que a melhor ação que podemos ter para potenciar a nossa saúde será cuidar do nosso ambiente social, o pára-quedas que ampara tudo. E recomenda que o foco seja para os três a cinco amigos da vida real em vez de o direcionarmos para os amigos distantes do facebook. Continua: “Regra geral queremos amigos com quem possamos ter conversas significativas, a quem possamos chamar num dia mau e ter a certeza que se vai importar. O nosso grupo de amigos é melhor que quaisquer droga ou suplemento anti-idade e fará mais por nós que praticamente qualquer outra coisa existente.” Anna Akbari, da sociologia, dá uma sugestão na seleção da nossa rede de apoio: não confundir aqueles que são os amigos passivos com os ativos, os que realmente estarão disponíveis para os encontros um a um, ficando alerta, amigos ativos podem transformar-se em passivos, com quem estivemos conectados antes, mas com quem hoje não há muito em comum e amigos passivos podem ser promovidos. Tudo é uma questão de escolha diria e neste território bastante: as amizades modelam e enraizam-nos sendo importante cuidar das fronteiras, perceber que deixamos entrar.

Quase todos os autores que li, depois de me fascinar pelo tema, são unânimes ao reconhecer que as amizades ativas são aquelas em que “pessoas partilham valores e uma conexão profunda, aquelas pessoas pelas quais mudarás a tua agenda, por quem apareces, com quem aprendes e com quem crias e queres criar memórias”. (Em quem podes abrigar-te? Com quem aprendes? Quem te desafia? Com quem estás alegre?). Alguns minutos de amizade duram uma vida inteira. (Akbari). Brené Brown, a autora da empatia, fala-nos do “feeling with people” onde está a capacidade de calçar os sapatos do outro, não julgar, reconhecer o que o outro está a sentir e deixar claro que o compreendemos. Estou aqui contigo… Isto será acima de tudo importante nos que selecionamos para perto de nós: ouvir com atenção plena e entender. Nenhum de nós quer que os nossos amigos resolvam os nossos problemas por nós, queremos ser compreendidos, validados, respeitados… que nos escutem e tenham abertura suficiente para viver connosco. “Rarely can a response make something better. What makes something better is connection.”

Adam Grant escreveu recentemente um artigo em que apela aos pais: esqueçam o bem sucedido, eduquem para a gentileza. Por outras palavras: para o humanismo que precisamos. Há alguns artigos a proliferar sobre a pertença dos gentis no mundo. E eu contente. É bom que saibas viver contigo e estar sozinho (a), mas não isolado (a)… A reciprocidade faz falta, palavra quase banida dos dias, (creio que muito por desejabilidade social e falta de consciência). Um Outono que signifique, ao sabor de um chocolate quente, nos cafés das mantas ou das boas playlists, da harmonia entre iguais… Até já

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Acerca do autor

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Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional