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Opinião. Num segundo só, vencemos o infinito – as escolhas na medicina

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Escrito por Redação

“Pés, para que os quero se tenho asas para voar”, Frida Kahlo.

Não me canso de pensar na mudança que tem vindo a ocorrer na medicina e em como os últimos 10 anos transformaram a relação médico-doente e como ainda pouco vimos do que será de todos nós neste novo paradigma.

Cresci com o conceito do médico com um vasto conhecimento livresco que tinha estantes e estantes de livros, que recebia as revistas científicas no correio. Habitualmente culto, reservado, com uma aura de preocupação como se o peso do saber o vergasse.

Acima de tudo o médico sabia de pessoas, muito mais do que de doenças.

Entretanto, tudo mudou. O conhecimento aumentou ao ponto de a medicina ter de se dividir em áreas de interesse e depois em especialidades. Os livros tornaram-se menos importantes, a internet ganhou o espaço das bibliotecas. A medicina passou a estar muito mais perto de quem a quer estudar.

Passou a decidir-se ao segundo, o médico passou a ser um filtro de conhecimento, um avaliador de uma quantidade enorme de dados, de experiências científicas. A ciência, pelo seu crescimento, espartilhou-se, partiu-se em muitas áreas que têm de estar constantemente a ser cruzadas por pontes para não se afastarem demasiado.

Deixamos de ter um barco de conhecimento para ter uma enorme frota de navios que nem sempre rema na mesma direção. Naturalmente, o crescimento do saber é necessário e permitiu melhorar imensamente o tratamento das pessoas doentes.

A questão que se põe é a de saber qual é o papel do médico em toda esta evolução. A medicina deixou de ser solitária para ser feita em equipa. O médico é um aglutinador e um facilitador do acesso aos melhores cuidados de saúde.

Mas, no fim de tudo, não somos médicos de doenças. Não somos repositórios de artigos, de trabalhos de investigação. Somos médicos de pessoas.

Somos aquele que tem de ouvir e aquele que tem de olhar. Mesmo que se encontrasse uma cura para todas as doenças do mundo, a medicina, tal como a entendo, não acabaria. Ao médico cabe cuidar da pessoa. Vencer o infinito num segundo só. Olhos nos olhos.

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