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Opinião. Ouvir o coração num suspiro – os segredos da medicina

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Escrito por Redação

“O segredo da existência humana reside não só em viver, mas também em saber para que se vive”, Dostoiévski.

Eric Topol, médico e um dos visionários da saúde moderna, declarou há vários anos que já não havia uso para um dos símbolos da medicina, o estetoscópio. Desde há muito tempo que este objeto se tornou, principalmente em jovens médicos, uma marca da profissão médica. O momento da escolha do primeiro estetoscópio estará gravado na mente de quase todos os médicos como um ritual de passagem na profissão, um assumir de responsabilidade perante a vida daqueles de quem cuidamos.

Habituamo-nos, desde muito cedo, na profissão médica a sistematizar a auscultação – saber onde se ouvem as diferentes partes do coração, saber quais são os sons que podem indicar uma pneumonia ou um edema do pulmão. Lembro-me de muitos momentos onde médicos mais experientes me explicaram, pacientemente, todos os passos para ser rigoroso nesta tarefa, os truques, os “segredos” de uma boa auscultação.

E lembro-me das pessoas doentes com quem aprendi que, pacientemente, aguentavam a sede de conhecimento dos aprendizes de feiticeiros que viriam a ser médicos. À medida que o tempo passa, a experiência faz com que o ato de auscultar seja cada vez melhor executado, cada vez mais perfeito.

Mas, ao contrário de Eric Topol, que declarou a auscultação como obsoleta, parece-me que hoje, precisamos é de auscultar de outra forma.

Na consulta, passo a maior parte do tempo a ouvir. A ouvir as palavras, os silêncios, as lágrimas. Ausculto suspiros, profundos. Percorro o coração de quem está sentado a conversar comigo à procura do sopro, do batimento fora de tempo que me levará a perceber o problema.

Neste tempo de imediatismo, rapidez de informação, de pequenos aparelhos que nos permitem ver o coração em tempo real, falta ouvir. Ouvir o suspiro como se estivéssemos a aprender a utilizar um estetoscópio. Ouvir o silêncio porque o ruído na vida de quem nos procura é muitas vezes ensurdecedor.

Aqueles que julgam que o progresso é feito de acesso a mais exames, a mais análises, a mais medicina de ponta, enganam-se. Essa é apenas uma parte do progresso, indissociável do componente humano.

A técnica da auscultação evolui com a experiência. A capacidade de ouvir o outro também tem de o fazer. É esta a única forma de mantermos o coração da medicina a bater. Medicina de pessoas para pessoas.

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