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Opinião. Quando a fragilidade se transforma – os segredos da medicina

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Escrito por Redação

“A parte que ignoramos é muito maior que tudo aquilo que sabemos”, Platão.

Uma das maiores dimensões da medicina moderna é a sua capacidade para prever o futuro. Cada vez mais, os algoritmos e a inteligência artificial permitem tomar decisões muito rapidamente e sustentadas na melhor ciência disponível.

Claramente, esta transformação é altamente disruptiva para a avaliação da pessoa doente e para o papel do médico nos cuidados que presta. Poderemos chegar a um momento em que as “máquinas” tomam decisões e em que o papel do médico será apenas de validação da decisão. No limite, poderemos ter um algoritmo de decisão para o doente crítico que nos estabelece uma probabilidade de sobrevivência, o que “obriga” o médico a tomar decisões baseadas em números que podem ser muito marcantes.

Esta questão é muito mais importante do que possa parecer à primeira vista. Por definição, o médico acredita até ao último momento que pode salvar a vida de um doente crítico (por exemplo numa emergência). Se, no momento em que a dinâmica necessária a salvar uma vida, somos confrontados com uma probabilidade de sobrevivência de 1%, ditada por uma máquina, corre-se o risco de este número criar um ambiente de medo do fracasso que pode condicionar a ação do médico.

Na vida, a mais bela capacidade é a da reinvenção do ser humano depois da adversidade, a capacidade que temos de renascer depois de momentos particularmente difíceis.

A medicina é, e será, um reflexo da vida. A sua maior beleza advém de não se desistir enquanto ainda existe uma possibilidade de salvar, tratar, cuidar. O médico não se pode permitir a não pensar, a não sonhar.

A inteligência artificial terá de ser enquadrada na missão da medicina: salvar, tratar, cuidar. Nunca poderá ser usada como um meio para afastar o médico da decisão. Decisões sobre pessoas têm que ser feitas por pessoas.

Porque, no fim a decisão é nossa, de todos nós. Porque não há inteligência artificial que consiga substituir o coração, a perseverança humana. Porque da fragilidade humana só pode nascer a força, a vontade de provar que a estatística não passa de um número. E o médico cuidará sempre da pessoa, não do número. Medicina de pessoas para pessoas.

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