Aires Fumega

Opinião. As putas e os filhos da puta

Estes dois termos já estão tão enraizados na cultura a nível mundial, que ninguém se dá ao trabalho de pensar na sua origem. Acontece em praticamente todos os países, sejam eles mais ou menos desenvolvidos e em todas as classes sociais.

Prostituta é uma mulher que troca favores sexuais por dinheiro. Esta é a definição mais comum. Puta é a forma mais vulgar de referir-se à prostituta.

Puta é também o insulto mais forte que se pode chamar a uma mulher. Não existe insulto equivalente para um homem que se prostitui.

Facilmente se conclui que estamos perante um das formas mais antigas de machismo. Homens e mulheres fazem essa discriminação. O homem pode prostituir-se e é quando muito chamado de gigolô e é tido como um bon vivant. A mulher prostituta é apelidada de puta e considerada inferior na sociedade. O homem pode ter várias mulheres e é considerado um galã. A mulher se sai com homens diferentes é uma puta. O homem trai e gaba-se aos amigos. A mulher trai e passa a ser chamada de puta. Curiosamente chamada assim por homens e mulheres. Não há contemplações nem solidariedade feminina.

Neste ponto, no mundo ocidental, não estamos assim tão longe de certos países em que a mulher é severamente discriminada.

Já que não há homens puta, há os filhos da puta. Como não há nome equivalente no grau de agressividade, para se chamar a um homem, convencionou-se que um filho de uma prostituta será a pessoa mais reles que pode existir. Insulta-se então o filho de alguém como se fosse o filho de uma tal prostituta.

Aqui existem algumas variantes. O termo é usado como a arma dos fracos, ao mais alto nível da fraqueza. Quando se perde uma discussão ou quando se perde o controlo ou a racionalidade, lança-se como uma espécie de bomba atómica para arrasar quem ouve. E funciona quase sempre bem. Não há ninguém que se sinta indiferente depois de receber tal insulto. Não não ninguém que não se se sinta severamente magoado.

Pode ser também o início de outro tipo de agressões, mais físicas, até porque se chegou ao topo da agressão verbal. Uma espécie de jogo em que se sobe de nível, ao mesmo tempo que desce o nível da discussão.

Existe até uma espécie de ritual a seguir. Manda o protocolo que depois de se receber o insulto, diz-se “Filho da puta não… filho da puta não…” cerra-se os punhos e parte-se para a agressão.

Outra variante do filho da puta é quando se refere a alguém que fez uma filha-da-putice.

A filha-da-putice, vulgo vigarice, falsidade, ou situação similar tende a criar um desejo na vítima, ou a alguém que de uma forma ou de outra se sente afetado, de insultar o autor.
Muitos desses filhos da puta andam por aí bem vestidos, em grandes carros, têm grandes casas e muitos têm até grandes somas em contas bancárias no estrangeiro. São no entanto respeitados e nunca insultados.

Talvez o mundo evolua ao ponto de se criarem novas palavras que deixem as prostitutas e os seus filhos em paz.

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