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Opinião. Sobre a solidão na medicina – para quem sofre e para quem cuida

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Escrito por Redação

“Um dia encontrarei as palavras certas e serão simples”, Jack Kerouac.

A intelectualidade é, por definição, solitária. Muitas das grandes decisões, descobertas, mudanças de caminho da humanidade foram definidas a partir do pensamento de um só homem ou de uma só mulher.

A própria medicina foi, durante muito tempo, uma atividade essencialmente de uma pessoa só. É relativamente recente o crescimento do trabalho médico em equipa, impulsionado pela necessidade de abarcar um conhecimento científico cada vez mais abrangente e também pela partilha de responsabilidades na tomada de decisões complexas.

Para quem sofre a decisão assume tanto mais complexidade de entendimento quanto mais médicos nela tomam parte. Está na altura de se rever a figura da consulta de grupo e torná-la um ganho de confiança para o doente, permitindo-lhe ter acesso ao racional da decisão. Caminhamos no sentido de decisões cada vez mais participadas pelo doente, em que o caminho proposto pelos médicos é assumido claramente e tem em conta os objetivos da pessoa em relação à sua doença.

Por outro lado, a medicina feita em equipa precisa de líderes fortes, que não tenham receio de assumir decisões difíceis, que sigam o caminho mais complexo se isso for o melhor para a pessoa de quem têm de cuidar. Isto só e possível num ambiente de forte crescimento intelectual e humano. É urgente procurar mais inteligência emocional naqueles que cuidam da saúde de todos nós.

No fim de tudo, ficam as decisões tomadas para o bem-estar do outro. O outro que não é um número de cama, não é uma doença, não é um caso complexo, é uma pessoa.

É na decisão solitária, nas palavras – certas, simples – que está a magia, o toque humano, perante um mundo cada vez mais dissociado da pessoa que sofre. Nick Cave escreveu, e cantou, que saberemos se a decisão é certa quando as estrelas explodirem. Mas as estrelas não explodem quando decidimos bem e, muito menos, quando decidimos mal. É nesta decisão solitária, escura, profunda, que esperamos que todas as cores do céu se juntem para nos ajudar, até a um novo nascer do sol.

E é neste renascimento, em que as palavras são, absolutamente simples, que se encontra o que de mais belo existe na natureza humana.

É esta a medicina que temos de fazer, sentir, viver. Olhos nos olhos.

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