Andreia Santos Opinião

Opinião. Porque não estás só

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

O ano está a caminhar para o final. Estamos já a viver Dezembro. Espero que como eu estejas perto das férias, de poder descansar, fazer o balanço e ganhar energia para 2020. Até porque 2019 foi intenso, permito-me desabafar contigo. As pausas são devidas e quase sempre bem-vindas. Nesta época, quando é quase Natal, o tempo ganha um significado bonito e torna-se especial. Há quem diga que o verdadeiro encanto está na confusão que a azáfama traz. Eu gosto muito dos dias pré-natalícios e de me entregar a eles. No entanto, e ao contrário do que possas antecipar, não é de magia que te quero falar hoje, mas de sensibilidade. Em consciência, tenho que te dizer que não há problema nenhum se este não for para ti o momento em que a alegria chega e o coração se abre. Os problemas não terminam porque chega o Natal e há de facto quem sofra muito nesta quadra apelativa.

It’s begining to look a lot like Christmas, diz a canção. Eu própria já a partilhei enquanto contemplava as decorações no centro da cidade e caminhava ao sabor dos cheiros e de outras músicas. Contudo, esta sensação pode trazer muita dor também. “Um mundo perfeito vê estes dias como sinónimos de amor, mais ternura e calor humano”, mas as nossas ideias mitológicas são apenas isso: desejos do que gostaríamos que existisse e ainda bem. Manter a esperança é importante, acreditar é muito bom, mas nunca quando nos faz esquecer de que a perfeição não existe e que para muitas pessoas tudo isto evoca muita ansiedade, tristeza, melancolia, stress ou exaustão, angústia por não pertencer. Existe, como já te falei outras vezes, uma tirania da felicidade absolutamente destrutiva e que se intensifica agora por toda a influência do contexto. Prefiro partilhar contigo as palavras de Sullivan que nos explica bem, a mim e a ti, a essência de sermos o que somos. De acordo com ele, todos somos apenas meros humanos quer estejamos felizes e bem sucedidos, alegres ou desapegados, miseráveis ou mentalmente perturbados, seja como for… e isto aplica-se, alerta, em particular nas férias. Estamos cá e temos pleno direito a sentir o que sentimos, mesmo quando não está consonante com a expetativa.

Um estudo realizado pela Associação Americana de Psicologia revelou que nos Estados Unidos são mais os indivíduos propensos a ficar em stress nas férias de Natal que os que não o são. Para além de todo o roubo que as tarefas inerentes à celebração, pelo modo como nos é dito para festejar, (não tens que dar presentes, sabias?), existem outras circunstâncias pessoais que não permitem que a emoção partilhada seja a da harmonia. Nesta altura, antecipo o dia e noite de Natal com muitos pacientes. O sofrimento não se interrompe. Há divórcios e lutos de pessoas vivas a ser feitos, desgostos, há maus relacionamentos familiares, (apesar de considerarmos todos que as pessoas em família se devem relacionar bem, não sejamos ingénuos, há mães, pais, filhos, irmãos, casais… que não o são e a quem é preciso impor limites e por quem não somos obrigados a estar onde não queremos), há lutos de pessoas que morreram mesmo e nos trazem saudade, há estar longe, há não poder celebrar em casa própria ou de alguém, há dívidas, há crise… não a evites. Não estás só na dor. Há muita gente que como tu, que não está bem.

É importante perceberes que apesar da convenção te é permitido ser, estando triste se precisares. Validar o que sentes, pedindo ajuda se for o caso, faz parte de cuidares de ti nesta altura em que te pedem para sair da tua história pessoal. Não o faças, permanece fiel a ti, até porque o veículo mais rápido para te sentires menor será a comparação. Sê compassivo, com os outros sim, mas igualmente contigo. Como te diria Brené Brown, a compaixão não é uma virtude, mas um compromisso, algo que podemos escolher praticar. A mesma autora dir-te-ia que és suficiente e que podes ser autêntico/a, imperfeito/a e que o teu sentido de pertença é proporcional à tua auto-aceitação. O que sentes é temporário, mesmo quando te parece que será para sempre. Tens que viver ou não passa, trazendo a durabilidade de sensações dificeis no corpo e no pensamento.

O sentido real deste tempo é o da reunião entre espíritos, o da conexão. “Grief is love’s souvenir. It’s our proof that we once loved. Grief is the receipt we wave in the air that says to the world: look, love was once mine. I loved well. Here is my proof that I paid the price. (Doyle Melton). Os verdadeiros herois quebram, mas também podem renascer porque foi tudo a sério. Eu já estive triste. Tu também certamente. Há sentimentos mais duros que são de facto funções do amor. Termino com outra canção: “Don’t stop believing…” Feliz Natal.

 

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Acerca do autor

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Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional