Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. Sobre a medida do sentir – a dor e o ser humano

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Escrito por Redação

“Se as estrelas se acendem é porque alguém precisa delas.” Vladimir Maiakovski.

Será possível medir a Dor? Como podemos saber realmente quanto sofre o outro? Estas são as perguntas que ouvimos todos os dias, dentro e fora da consulta.

Se quisermos responder num nível estritamente científico a resposta é, inequivocamente, sim. Embora não haja métodos diretos para medir a dor (uma análise específica, por exemplo), temos cada mais escalas e métodos de aferição que nos permitem compreender o grau de dor de cada pessoa e o nível de incapacidade que daí resulta.

Sabemos, hoje, que há marcadores específicos associados ao grau de dor e que estão a ser fortemente investigados. Não faltará muito, portanto, para que se consiga ter um valor medido por um meio complementar de diagnóstico e que nos dê esse número, essa certeza, que nos habituamos a ter na medicina moderna.

Mas, talvez seja mais importante fazer uma pergunta diferente, que nos leva muito mais longe na compreensão da Dor. Será possível medir o sentimento?

Será possível compreender realmente o que o outro sente, especialmente quando sofre? A Dor é uma construção. Das nossas experiências, dos nossos medos, dos sucessos e insucessos que vivemos. Por isso sofremos de forma diferente enquanto bebés, adolescentes ou adultos.

A Dor, em última análise, só pode ser plenamente entendida por quem a sofre e, por isso tem de ser absolutamente respeitada. Daí a necessidade de darmos espaço para que se fale de Dor, para que se desmistifique a ideia de que o sofrimento é inevitável e de que pouco há a fazer.

Daí termos de ouvir quem sofre e acreditar sempre.

Como um sentimento, que nasce da profundidade do ser e que é dificilmente traduzível em palavras, também a dor tem vida própria. Para a compreendermos temos de compreender o outro.

Tal como as estrelas se acendem porque alguém precisa delas, tal como os sentimentos são a medida dos nossos dias, a dor é vivida, mais do que medida.

Neste ano que acabou de começar, não nos esqueçamos de sentir, de tocar a vida do outro. Só assim, poderemos ser algo mais que um número, só assim poderemos, verdadeiramente, fazer a diferença na dor e na alegria de quem nos rodeia.

Que 2020 seja sereno, forte e, acima de tudo, sentido.

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