Opinião

Opinião. O mundo suspenso num suspiro – sobre a condição humana

“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.” Carlos Drummond de Andrade

A expressão “o último suspiro” é-nos familiar e habitualmente associada aos últimos momentos de vida de alguém. Será também familiar a ideia de um primeiro suspiro, de uma primeira respiração quando uma criança começa a chorar nos primeiros momentos após o nascimento.

Em ambos os momentos o mundo fica suspenso num suspiro. Os segundos parecem horas de espera, o sentimento sobrepõe-se à razão e a condição humana é isso mesmo, humana, emocional, frágil na falta de controlo sobre o fim e o início de uma vida.

Encontramos muitas vezes, filhos, pais, amigos, famílias inteiras, suspensas num momento definidor da vida de alguém.

Ouvimos os silêncios na cabeceira de uma cama de hospital com tanto que se queria ter dito e não se foi capaz, com tanto que se queria fazer e não se conseguiu. Vemos os olhos perdidos, à procura de um infinito que se toca mão com mão num sorriso breve.

Ouvimos “Que mundo é este?” perguntado à procura de quem possa responder. Ouvimos só. E deixamos as palavras para quando o mundo deixar de estar suspenso.

Drummond de Andrade sentia-se com poucas mãos para abraçar o sentimento do mundo. É esse o sentimento quando não conseguimos confortar quem precisa de um mundo inteiro num olhar, num cumprimento, numa palavra.

Se o mundo fica suspenso quando estamos perante alguém que está a viver os seus últimos momentos, também o fica quando estamos com aqueles de quem gostamos, quando fazemos a diferença na vida de alguém.

E é, nesta complexidade da nossa condição, que crescemos enquanto pessoas e enquanto sociedade. Na plenitude do ser e da nossa capacidade de dar ao outro muito com pouco. Com o estar, com o não deixar ninguém suspirar no silêncio ensurdecedor da solidão.

Façamos então com o que o mundo se suspenda para aqueles que sofrem e que possamos cuidar do primeiro ao último suspiro. Cuidar com as mãos que temos e que podem, todos os dias, fazer a diferença.

 

 

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