Andreia Santos Opinião

Opinião. Storytelling

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

Está frio, mas a cidade está bonita. O Ano Novo já cá está e o que espero é que o teu tenha iniciado da melhor forma possível, mesmo que tenhas falhado algumas das resoluções que fizeste. A ciência confirma este dado e isso só quer dizer que em princípio de ano somos inocentes ainda, vamos lá aprender… Hoje não será diretamente sobre isto que te quero escrever, mas da ideia próxima de que todos nos podemos esquecer do que somos e que isso é duro, muito duro de se experimentar. “I tell a story and therefore I exist”. Contamos histórias que definem a nossa existência e se não as conseguimos continuar ou momentaneamente interrompemos o livro a ser criado provavelmente ficamos loucos, (Shekhar Kaper, 2009). “… a person without a story does not exist.”

Pela história que contamos entenda-se a relação entre o que somos e o que esperamos desenvolver para ser, a nossa posição no mundo, a nossa mitologia pessoal, (Laura Lee, 2018). Teremos que nos predispor a narrar para acreditar e mudar o futuro. E digo isto porque confio que as pessoas procuram terapia quando se perdem. Porque são demasiados os excertos de contos que leio na clínica que me fazem as mesmas perguntas e o confirmam. “Continuo a/o mesma/o?”, “O que mudou na minha forma de estar?” ou então, com mais peso, o difícil e interno “já não sei quem sou.” Uma das grandiosas possibilidades da clínica psicológica será a liberdade do paciente poder reescrever a sua narrativa, trazendo para si aspetos ainda omissos da mesma. Só quando o fazemos, quando contamos histórias, podemos confiar e deixar de ser reféns do passado ou das situações pelas quais sofremos. (Já estás a compreender a proximidade entre o que dizes a ti mesmo/a e as tuas conquistas em 2020?)

A determinada altura da vida adulta deixará de ser possível não ter sido desiludido, rejeitado, mal amado, aldrabado… mas isso não te fará quem és, não de uma forma bruta e sem percepção dos valores que te pertencem e pelos quais te deixaste ir quando não sabias ainda mais de tudo. Só quando ficares triste, diria, poderás compreender a revolta que sentiste e entender em simultâneo o que gostarias que tivesse sido e não foi. E só quando te entenderes assim, poderás constatar o que está do teu lado e te faz pessoa porque te diz como és. Para não ficarmos presos ao passado e estarmos absolutamente presentes e abertos a oportunidades, há melhores versões para contar quase sempre. (Este foi um dos objetivos do primeiro evento do ano em que participei e pelo qual estou grata. O Sparkle Your New Year tinha como propósito alimentar a audiência para o melhor de si no novo ano. Uma das questões que coloquei foi: de que forma queres que 2020 te descreva? Deixo contigo.)

A Esther Mellar escreveu que as histórias que contamos a nós próprios repetidamente serão como profecias auto-confirmadas. Por isso, cuidado com o que te dizes de ti. Na maioria das vezes, a realidade é mais complexa que o lado negativo. O que te tens dito? E de que forma isso mantém as tuas vivências? É para quase todos nós muito óbvio que te transformarás no que pensares. Há quem diga que o segredo para se ser resiliente seja uma boa história. Algumas pessoas ficam presas ao que corre mal, outras menos. Será absolutamente natural ficar ferido (perdido/esquecer o que se é) com um acontecimento negativo, porém voltar a estar bem e a viver bem depende da integração “construtiva” do sucedido numa narrativa que nos permite avançar. “Não fiquei com o emprego, continuo a falhar” Vs “Não fiquei com o emprego, mas pude perceber que … o que me irá ajudar numa próxima entrevista.” (Magness, 2018). “Nós escolhemos, sem negar a realidade, fiquei mesmo sem o emprego e é legítimo sofrer, não fui correspondido, não fui selecionada para o doutoramento, … de que forma queremos codificar este episódio na memória.”

“Storytelling is a big part of what separates us from other species… the stories are extremely powerful, they have a significant and lasting impact in our lives.” (Magness, 2018). Em coaching, dou o processo por muito aberto quando o coachee diz que se sentiu ele/ela próprio/a. A confiança e satisfação pessoal é grande aqui. Tu escolhes como queres viver. Percebendo quem és e caminhando sem medo: sem te comparares a ninguém e honrando o teu texto, tudo o que te faz especial. Ou fugindo, atacando e sendo vítima do destino. Confia na vida, no processo. Força! Até Fevereiro!

 

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Andreia Santos

Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional