Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. Sobre o essencial na medicina – da imperfeição, nasce o sol

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Escrito por Redação

O essencial é invisível aos olhos.”, Antoine de Saint-Exupéry

Muito tem sido pensado e escrito sobre a necessidade humana de tolerar a dor. Os contextos filosóficos e religiosos que foram evoluindo ao longo dos tempos têm-se debatido sobre o alívio do sofrimento como uma qualidade quase divina.

Com uma evolução que acompanhou de uma forma estreita o avanço da humanidade, a filosofia da dor tornou indiscutível para a medicina moderna que a dor deve ser prevenida e tratada adequadamente. Ao mesmo tempo, consolidou-se o pensamento de que se trata de uma condição na qual o médico tem um papel determinante como garante da qualidade de vida da pessoa que trata.

Portanto, o tratamento da dor é “essencial” diz-se hoje. Embora bem-intencionada, esta frase é perigosa. Porque o que é essencial é tratarmos, cuidarmos, de pessoas, não de doenças. E esta diferença é absolutamente marcante porque o que é essencial para nós pode não ser para o outro. Só o outro sabe o que é mais importante para ter conforto, para poder ultrapassar a sua dor.

O essencial do sentimento, da experiência de dor que a pessoa que sofre vive todos os dias é tão pessoal, tão intransmissível como o DNA que nos aproxima e nos diferencia numa individualidade que não é possível replicar.

O tratamento da dor é ainda muito mais imperfeito do que gostaríamos, como uma estrada de nevoeiro em que vamos vendo os obstáculos apenas quando estamos muito perto. É por isso que o foco daquilo que fazemos tem de ser assumir esta imperfeição e fazer com que seja partilhada e ultrapassada com o fator humano.

Talvez tenhamos de partir de uma medicina baseada na evidência para uma medicina baseada no essencial. Para isso temos de ouvir, pensar em conjunto, estabelecer um plano com quem sofre.

Estamos num ponto de viragem na sociedade e na medicina. Só uma abordagem à medida de cada uma das pessoas que nos procura pode trazer os ganhos essenciais que procuramos enquanto médicos e enquanto pessoas.

Porque o que é essencial é tocarmos a pessoa de quem cuidamos. O que é essencial é mostrar que o sol irá nascer todos os dias, por mais imperfeitos que eles possam ser.

 

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