António da Silva Fernandes

Opinião. A cidade já não é a solução

Urge olhar o processo de progresso social em curso ao contrário.

Um processo que remonta ao início das concentrações urbanas em redor do crescimento industrial, comércio e serviços, colocando um ponto final no feudalismo e no trabalho escravo.

As pequenas cidades, até aí, com predominância social burguesa, foram crescendo ajustando a sua arquitetura urbana a necessidades conjunturais em que o povo se foi misturando com as aristocracias dominantes respondendo às necessidades destas fornecendo a mão de obra necessária a troco de um salário ou, em muitos casos no tempo, a troco de um teto e alimentação.

Em Portugal e, na Europa em particular, esta evidência é mais notória aquando da existência de regimes monárquicos cuja expansão colonizadora visou a captura e comércio de pessoas e mercadorias gerando um novo mecanismo económico, o comércio, que veio a ser importante para o reforço do enriquecimento da burguesia e da organização e crescimento das cidades.

Com o decorrer dos tempos e as alterações políticas por via militar, os Estados e os modelos políticos Republicanos  trouxeram inovação social em que os direitos e deveres dos povos emergiram e as populações foram sendo educadas para olhar a cidade como a alternativa de sobrevivência com alguma “dignidade” uma vez que é nelas que encontram as respostas para as necessidades elementares como o são o trabalho; a saúde; a justiça; entre muitas outras.

As democracias não alteraram os conceitos e paradigmas instituídos através de uma verdadeira revolução nos seus sistemas de ensino de forma a fundamentar a educação e, as referências de ontem continuam a ser às de hoje com predominância para a competitividade e o sucesso individual. Conduta que condiciona a forma de olhar a cidade colocando-a no centro da solução para tudo.

Acontece que, esta forma de olhar as cidades, conduziu ao atual desequilíbrio entre as regiões mais distantes dos centros urbanos votando ao abandono essas localidades e sobrecarregando o tecido urbano em todos os domínios de que o cidadão carece.

Há por isso uma necessidade urgente em olhar este processo ao contrário implementando uma cultura de proximidade das pessoas com o meio de forma a que as pessoas encontrem aí todas as respostas que as cidades de hoje não lhes podem dar com a qualidade devida.

Nesse sentido, a recuperação da dispersão da densidade habitacional disseminada pelas freguesias tenderá a gerar dinâmicas agrícolas abandonadas contribuindo para o ordenamento harmonioso do território e da vida, com qualidade, mas também com a garantia de disponibilidade para a elevação cultural das pessoas através da dotação dos meios necessários em consonância com a descentralização cada vez mais necessária.

As cidades conseguirão o equilíbrio necessário para a contensão e reversão das concentrações dos diversos surtos de poluição: sonora, regulação ambiental, qualidade do ar, qualidade da água, tratamento dos resíduos; entre outros, mas também numa melhor gestão dos fluxos de tráfego e respetivas vias; urbanismo; transportes públicos; organização do seu espaço territorial; assim como: do parque escolar nos diversos escalões descentralizando tudo aquilo que até hoje se preocuparam em concentrar para racionalizar os meios de que dispõe e para que tem espaço disponível. Descentralização a ter em conta nos diversos serviços e setores num tempo em que as tecnologias existentes o permitem de forma simples.

Porque, a deslocação das pessoas da periferia para as cidades ainda é uma necessidade mas já não é a solução.

Nem para uns, nem para outros.

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