Aires Fumega Opinião

Opinião. A Maré Marega

Redação
Escrito por Redação

A minha filha na véspera do seu sétimo aniversário,  pediu-me que lhe fizesse uns convites no computador para entregar aos amigos da escola.

  • Pai, posso convidar a Mónica?
  • É tua amiga?
  • Sim
  • Então podes convidar a Mónica.
  • Mas pai, é a Mónica Monteiro, a cigana…
  • É tua amiga?
  • Sim
  • Então podes convidar a Mónica.

Nada mais foi dito acerca do assunto. Não foi preciso explicar. A mensagem foi entendida pela Daniela.

A xenofobia, ou o racismo, não deveria ter que ser explicada aos adultos. Isto se desde a infância fosse transmitida a igualdade, com bons exemplos.  Na canção de Gabriel o Pensador, “Racismo é Burrice”, ele diz: “ e de pai para filho, o racismo passa, em forma de piadas que teriam bem mais graça, se não fossem o retrato da nossa ignorância, transmitindo a discriminação desde a infância”.

O caso de Marega é um bom exemplo de um “saltar de tampa” motivada pela pressão exercida durante muitos e muitos anos. A “regra” sempre foi ouvir e calar. Um atleta de alto nível deve fazer “ouvidos moucos” ao que se diz nas bancadas. Há quem argumente, que o ordenado que ganha, o obriga a ouvir e calar. Como se um jogador de futebol, ou de outra modalidade, fosse pago em função do que pode aguentar das bancadas, e não pela sua qualidade técnica, leitura de jogo, capacidade de trabalho em equipa e assimilação tática, posta em prática no jogo.

Todos os insultos são condenáveis, mas o insulto com motivações racistas é aquele que passa as marcas do razoável. Não se deve tolerar. O não responder a um insulto desses pode até ser entendido como acatar a tese de Samuel Cartwrigt, um psiquiatra norte-americano que criou a expressão drapetomania, explicada como uma “desordem mental”  que levava os escravos a fugirem para a liberdade.

Marega fez isso. Desafiou as regras. Libertou-se. Espera-se que, tal como Bosman, que deu origem a uma lei com o seu nome, Marega também crie a sua Lei. Criando novas formas de atuar e castigar quem use o racismo nos estádios de futebol e obviamente noutras modalidades. Isso será sem dúvida um avanço enorme no respeito pelos direitos dos praticantes de qualquer desporto.

Obviamente que isto não deve ser entendido como um caso de Guimarães, nem dos seus adeptos. Inúmeros casos destes, fazem parte dos jogos a nível nacional e mundial.  Muitas vezes, estes ataques não são levados a cabo por pessoas racistas, mas sim uma resposta em matilha. Um espécie de defesa em que se analisa o perfil físico da pessoa que consideramos ser um incomodo, encontrando o tal ponto fraco. Poderia ser o gordo, o magro, o gay, o baixo, etc.

No entanto há que impor limites. O bom senso deixou de ser algo que se pode usar, pois a falta dele é facilmente desculpável.

Há que criar regras ou leis, que se apliquem em casos de manifestações racistas, ou de descriminação. Outras há que não será necessário criar, mas sim apenas ter a coragem de colocar em prática.

No caso especifico do futebol, existem regras, que podem ser implementadas e meios à disposição para identificar os culpados e levá-los a responder em sede própria.

Que esta maré Marega, seja esse ensejo, essa oportunidade, essa disposição e que crie o ânimo que faltava para implementar a verdadeira Lei Marega.

 

 

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