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Opinião. Covid-19: Como lidar com a ansiedade quando ela é normal?

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

Hoje pareceu-me importante falar-te sobre algumas das prescrições que te podem aliviar ao gerires o assunto que nos preocupa a todos/as. Há cada vez mais manuais e artigos sobre isto, o que é bom e traduz a necessidade comum. É muito óbvio o medo. Estamos todos/as a tentar o melhor que conseguimos para estar à tona da onda que nos entrou mundo fora, país dentro, na cidade ou vila, no trabalho, em casa… “we´ve had important and significant things happen in the past, but nothing quite so fundamentally life-altering… Unprecedented.” (adpt. S. Pabial).

O que vivemos é desconhecido e vai sendo gerido dia a dia, com base nas evidências científicas que vão chegando. A verdade é que vão chegando… e que em absoluto tudo isto vai passar, podendo no entretanto provocar um estado agravado de ansiedade. De que forma podes lidar com o que é muito difícil de não sentires agora para que não entres em pânico?

Confesso-te que, em tempo de isolamento social, comecei a sentir a falta dos encontros espontâneos nos cafés por exemplo, nos quais não sei o nome de quem me atende à mesa, mas em quem reconheço um estilo próprio, um sorriso que se tornou familiar e isto terá que aguardar, mas não toda a conexão social. Começo por te pedir que, em tempo de quarentena te mantenhas conectado/a. “Separados mas juntos”. Encontrando formas de o fazeres com familiares e amigos e também com colegas de trabalho. Precisamos de estar com distância, mas isso não nos impede de telefonar, de ligar o zoom para gerir encontros numerosos ou de fazer videochamadas ou enviar vídeos e mensagens positivas a alguém. Só o facto de estarmos conectados reduz a ansiedade, dá conforto e ajuda-nos a largar o eu, cuidando dele, para abraçar o nós. Estamos de facto nisto todos juntos e a necessidade de pertencer é essencial. Sejamos pessoas.

Por outro lado, é desejável que mantenhas a tua rotina de forma consistente. E isto significa: adapta-te, (já não podes ir ao ginásio, mas podes treinar em casa) e agenda, cumprindo tarefas nos horários definidos. A regra é: se te ajuda, continua. Acorda e deita-te em horas semelhantes, faz as refeições do mesmo modo. Toma um pequeno-almoço reconfortante pela manhã e define quando páras de trabalhar e vais relaxar com uma atividade preferida e para a qual até estavas sem tempo: ler um livro… (Já não me desloco, estou em casa, em remoto, e isso ajudou-me a conseguir arrumar o quarto, treinar mais, ver filmes que já queria ver).

Sê teu/tua amigo/a, estamos a consumir muita energia emocional e por isso só extraordinariamente seríamos capazes de manter o ritmo ou a obstinação, dá-te margem de erro. Aprende a relaxar. Não é a fase de estares exigente, a produzir massivamente, mas de cumprir o possível e descansar. De que valeu a correria? Foi demasiado cruel a forma como te pediram para parar, mas a mensagem que te transmitem será para que te tornes mais capaz ainda. Deixo contigo o que uma autora me enviou: “Don´t lose heart, we were made for these times”.

Foca-te no que podes controlar e não nos aspetos que não podes dominar. Só podes responsabilizar-te pela tua atitude, pela forma como segues as recomendações da DGS e não pelo que os outros fazem. Isto pode ser difícil quando há pessoas próximas com comportamentos que avalias de risco, mas tenta uma abordagem empática para persuadir do que é certo. A aceitação leva tempo. Não podes prever se ficarás sem emprego, mas podes manter contactos laborais, cumprir remotamente tarefas, equacionar projetos e continuar certamente alguns, aprender um curso que te prepare… mesmo que de casa. Da mesma forma, não poderás prever o que acontecerá ou quantos alimentos existirão nas lojas… não é útil estares a questionar-te sobre o que não podes influenciar. Deixa-me acrescentar: ao contrário do que possas imaginar, os tempos de crise evocam o melhor nas pessoas e por isso a solidariedade vai ganhar mais força, cada vez mais. São imensos os exemplos a surgir diariamente e isso encanta. Há milagres em tempos de crise e isso é para reparar. Confia e abraça o desconhecido.

Não passes o tempo todo a pesquisar notícias. Esta é uma forte tentação. Embora seja importante estares informado/a, define algum tempo para o fazeres, não todo o tempo. Duas vezes por dia será razoável, por exemplo a hora dos telejornais. Para além da grande probabilidade de leres notícias falsas, ainda aumentas o teu desgaste emocional, o desespero.

Lembra-te destes dados: para a maioria das pessoas o risco de infeção grave é até agora baixo e ainda será mais se te proteges convenientemente. Deixa que isto te guie e mantenha pro-social e de olhos no futuro.

Pede ajuda se precisares, não só a amigos, mas a especialistas. E há muitos a ajudar gratuitamente!

Sentires ansiedade é natural e diz que podemos confiar em ti. De facto a situação requer precaução e todos precisamos de estar alerta. Mas não em pânico. Um estado muito intenso de ansiedade levará a que o teu desespero nos coloque em má situação. É o exemplo dos “assaltos ao supermercado”. Não negues as tuas emoções: reconhece-as, percebe o teu corpo, dá-lhes um nome, abraça-as com gentileza, tentando descontrair, encontra-te a partir do que é estável e certo na tua vida hoje (Kabir, 2020). Estão muitos, mesmo muitos profissionais de saúde e outros, muitos psicólogos e não só a trabalhar para garantir que “vai ficar tudo bem” (como os meninos/as nos escreveram nas varandas). Como diria Foroux: devemos sim estar preocupados, mas o mundo inteiro está e isso é bom, é um sinal de que vamos melhorar. “ Até já

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Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional