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Covid-19. Raul Marques Pereira: “engolir lágrimas e seguir em frente”

Escrito por Joaquim Ribeiro

Em exclusivo, Raul Marques Pereira* falou na primeira pessoa sobre a luta na frente de combate contra a pandemia Covid-19 em Portugal, mais concretamente na zona Norte. Fique com as palavras na primeira pessoa de um profissional de saúde, que tudo faz diariamente para ajudar cada um de nós. Deixa apenas um apelo: “FIQUE EM CASA”.

Engolir lágrimas e seguir em frente – nunca esqueceremos os que caíram

Este é o mês em que o mundo de todos nós caiu. Acordamos para uma realidade que nunca tínhamos sentido. Com um sentimento estranho, um nó na garganta, um calafrio que não deixa dormir. Alguns, perceberam primeiro. O que vinha aí era mau, muito mau. Um inimigo diferente, invisível, com um potencial de progressão imenso. Tínhamos que preparar as defesas. Conversas, mensagens, trocas de ideias até de madrugada para tomar decisões. Proteger já os mais frágeis, preparar o exército para a batalha.

O calafrio, o nó na garganta é medo. Mesmo aqueles, como eu e muitos outros, que já fizeram medicina em situações de particular dificuldade sentem que este inimigo é diferente. Ouço os duros dos duros com voz trémula, atendo o telefone para ouvir as minhas referências da medicina a soluçar. Com medo. Fora de casa para não contagiarem a família.

As lágrimas correm sem fim ao ler as mensagens dos colegas italianos. A informação cai a um ritmo vertiginoso. Percebemos que temos de agir ainda mais depressa. Agilizam-se protocolos, desenham-se estratégias e implementam-se medidas duras, sem olhar para trás. Proteger, proteger, proteger. Todos somos frágeis perante este vírus.

Equipas de saúde unidas 

Respiramos fundo. As equipas de saúde unem-se como nunca se viu. Esquecem-se diferenças e começamos a implementar um plano para a nossa comunidade, para os nossos doentes. O medo transforma-se em capacidade. Explicamos o que vem aí para que todos percebam que a única solução é ficar em casa. Que o inimigo é matreiro, esconde-se e manifesta-se de muitas formas diferentes. Trabalhamos com a imprensa, com as redes sociais para explicar, avisar, aconselhar. Para não deixar só quem já está fragilizado pela doença, pela condição social, pela vida.

Itália, nunca será esquecida

Hoje, em Portugal, ainda estamos no início da nossa luta. E, mesmo na incerteza do que aí vem, uma coisa sabemos: não iremos desistir enquanto não ganharmos esta guerra. Nunca esqueceremos os nossos colegas de Itália. Nunca esqueceremos os doentes, os médicos, todos os que lutaram e caíram. Queríamos ter percebido antes. Queríamos ter feito mais. Por todos os que perderam a batalha, engolimos as lágrimas. Não iremos desistir. Vamos vencer esta guerra. Nunca vos esqueceremos. 

*Raul Marques Pereira é Médico especialista em Medicina Geral e Familiar. Investigador em Dor Crónica

Nota da redação: o Semanário V faz um agradecimento especial ao Dr. Raul Pereira, cronista no nosso jornal, e a todos os profissionais de todas as áreas que neste momento lutam contra esta pandemia.

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Joaquim Ribeiro