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Vila Verde está de luto. Faleceu Carlos “Forte” Costa, vítima de Covid-19

O Semanário V fez reportagem de Carlos Costa na sua primeira edição a 13 de janeiro de 2016. “Forte”, como é conhecido em Vila Verde, foi roupeiro do Vilaverdense FC nas décadas de 60 e 70.

Faleceu com 82 anos, hoje na Alemanha. Encontrava-se internado no hospital nos cuidados intensivos e, segundo familiares, infetado com o novo coronavírus, que lhe terá provocado a morte.

A redação do Semanário V endereça sentidas condolências à família e amigos.

Leia a reportagem do V de 2016, por Ariana Azevedo:

CARLOS “FORTE” COSTA: MEIAS AO LUME E LINHAS EM CAL – O ROSTO DE 63 ANOS DE HISTÓRIA DO VILAVERDENSE

Carlos “Forte” Costa © Luís Gonçalves / Fotofelicidade para Semanário V

O dia 18 de janeiro de 1953 marca a data de fundação do Vilaverdense Futebol Clube. Mas não são só as conquistas no futebol ao longo de 63 anos a deixar marcas no clube. Há memórias, há registos, e há sobretudo rostos repletos de história, que marcam o Vilaverdense desde os primórdios da sua existência.

Um deles é o de Carlos Costa. Tem 78 anos feitos e “já entrei nos 79”. Traz, com orgulho, ao peito, a medalha de mérito por serviços prestados ao Vilaverdense FC, adquirida pelo desempenho das funções de roupeiro e de “faz-tudo” no clube nas décadas de 60 e 70. “Trabalhei 12 anos no futebol”, conta o antigo roupeiro. “Eu, os meus filhos, e a minha patroa, que já faleceu. O que ela passou!”

Numa altura em que a tecnologia se limitava ao lavar e secar da roupa à mão, o trabalho era “bem diferente. Jogava o grupo dos pequenos, e tínhamos de acender o lume, e lavar as meias, que não chegavam para o grupo dos grandes vir jogar. Terrível! As toalhas eram pequeninas, limpavam-se os pés e já não serviam para mais nada. Andavam-me sempre a pedir toalhas, mas eu não dava saída”, desabafa.

Naquele tempo, eram à volta de 40 jogadores. Para contar os equipamentos que tinham de estar prontos a tempo e horas, Carlos perde a conta. No Verão era tudo mais fácil. “Lavava-se tudo de manhã, e ao meio-dia estava seco”. O Inverno, mais frio e rigoroso, dificultava as tarefas. “Não secava nada a tempo. A lareira estava sempre a arder, a roupa sempre nas cadeiras e nos bancos, a ver se secava depressa”. “Era um cheirinho a fumo, no Inverno” – acrescenta o filho de Carlos, Francisco, que muitas vezes ajudou o pai nas tarefas de auxiliar o clube, e que não passavam só por tratar da roupa. Geria-se o balneário – muitas vezes a água quente não chegava da equipa dos juniores para os seniores – e ainda havia tempo para tratar do calçado. “Lavava as chuteiras bem lavadinhas, punha tudo a secar, engraxava-as e punha-as direitinhas, prontas a usar”, recorda Carlos, com nostalgia, o trabalho que sempre fez com todo o afinco. Tratava ainda, com a ajuda dos dois filhos mais velhos, de marcar as linhas do campo. Uma tarefa que, mais uma vez, era dificultada na altura. “Íamos buscar a cal, fervíamos com água para ficar em pó, e era tudo marcado à mão. E quando chovia? Mais um problema. Apagava-se tudo. Quantas vezes fomos marcar tudo de novo no intervalo, porque estavam as linhas apagadas… Eram tempos difíceis.”

Nos 12 anos de serviços prestados ao Vilaverdense Futebol Clube, Carlos nunca levou dinheiro por nada. O lucro que tinha, fazia-o no bar improvisado ao pé do campo, feito com uma tábua de madeira. “Vendia umas cervejinhas no campo, o que pudesse!”, conta Carlos Costa. “Púnhamos umas bebidas, umas bolachas, uns tremoços, e às vezes até ovos cozidos caseiros, vinham das minhas galinhas. Era tempo de escravidão, de fome.”

Hoje em dia, é tudo muito diferente. Há máquinas de lavar, máquinas de secar, há relvados sintéticos, bancadas cobertas, e equipamentos de sobra. No tempo em que Carlos esteve ao serviço do clube, a vida era diferente. Por volta de 1977, não se recorda bem, Carlos deixou as funções de roupeiro do clube – porque a vida é uma evolução constante – mas nunca perdeu a ligação à equipa. “Venho aqui algumas vezes. A pé não, o joelho não me deixa andar. Mas sempre que posso, estou aqui”.

Pode fazer download da reportagem aqui.

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