Andreia Santos

Opinião. Freedom on Hold…

Estou há três semanas em casa. Ausento-me apenas do ninho para ir às compras e à farmácia ou ao banco, quando não consigo tratar de tudo online. Trabalho a partir do sistema remoto, tive que adaptar as consultas. Estou, certamente, como tu, mesmo que estejas ainda a sair para cumprir obrigações laborais ou pertenças à linha da frente do SNS ou a umas das forças de proteção que nos servem e zelam por nós, a cumprir as recomendações da DGS, olhando por ti. Isolada. Com distância de segurança dos outros. Mas em interação… Hoje é sobre esta aparente contradição que te quero falar. Talvez nunca como agora tenhamos usado tanto as redes sociais e as tecnologias para estarmos em contacto, não será totalmente ajustada a designação de distância social.

Um dos primeiros estudos sobre o impacto psicológico da pandemia saiu na Bélgica e dá conta das dificuldades emocionais da maioria da população em clausura. O tempo a isto obriga e nada do que te direi te fará o apelo para que deixes de corresponder, estando longe, bem pelo contrário, continua. Assim venceremos e essa é uma das únicas soluções conhecidas até ao momento para não ficares doente e não tornares doente quem está contigo. Um dos resultados salientes do estudo destaca que o declínio na saúde mental se fez sentir a partir do aumento da ausência dos contactos com familiares e amigos. Sendo isto fisicamente inevitável, o que te quero então pedir é que não o tornes também impossível ficando em casa ou com a cautela da continuidade do trabalho fora de portas. Diria então que distância física não é distância social.

Vais dizer-me que não é o mesmo. E eu vou concordar contigo. Não é. Pessoalmente não o faria se não fosse obrigada. Compreendo. Custa muito, escrevi há dias no instagram. Custa algumas lágrimas de todas as vezes que se liga a tela ou o esconder delas quando são os mais pequeninos os nossos intelocutores. Mas voltaremos. Sei que voltaremos a estar juntos em abraços reais e por agora, mais uma vez, a bem de todos, é o que temos. Estamos todos possivelmente a perceber que o que nos faz felizes é de facto muito pouco… E a partilhar vulnerabilidade sem defesas. O que também será bom para ficar connosco quando tudo terminar lá à frente… bastante à frente não te irei mentir sobre a sensação que tenho. (E creio que esta etapa nos estará a preparar para saber reagir a outras possíveis).

Há poucos dias saiu um artigo no The Atlantic sobre a Nostalgia, que inicialmente era considerada um sentimento negativo em termos cientificos. Pois, até pode ser… Mas há uma diferença na nossa nostalgia. Sabemos que apesar da evocação do passado recente que fazemos e nos magoa não ter, das saudades que não nos farão esquecer, também nos estamos a preparar para o futuro. Também estamos a ver o que de facto nos faz mais falta e a criar mapas mentais que guiarão as nossas ações a seguir a isto. A Sub Capa da nossa Vogue Portugal escolheu o título, Freedom on Hold… mas o subtítulo foi “Covid 19, Fear Will Not Stop Us”… e é assim. Também esperamos e enquanto há esperança há atitude e coragem para lutar pelo que nos pertence e não deixou de nos pertencer. Estamos a perspetivar o que virá e a adaptar tudo. A ser resilientes. A resilência não é um traço de carácter, desenvolve-se. E se como para aprender a dançar inicialmente nos doiem os pés das pisadas que levamos, também aqui nos dói até olharmos para além do que vemos…

Um outro texto de Murthy e Chen, escrito em Março, fala da recessão social, e descreve-a pior que a crise económica esperada… Fomos sequestrados de uma vida física diferente, expansiva e agora estamos confinados… os autores explicam que isso pode causar danos à humanidade, mas porque os laços entre pessoas se acabam, afetando o nosso humor, saúde, capacidade de aprender e trabalhar e o sentido de comunidade…A solidão mata. E isto é sério. Ouvi ontem os médicos italianos quase a chorar em direto e a pedir para irem às casas de quem não tem ninguém… Para além de te pedir que te adaptes e não deixes de te conectares a quem gostas, também te lanço o desejo para que não nos percamos no meio de nós, consumidos pelo que está apenas ao lado e que é certo nos faz sofrer. Mais do que olhar para o que não temos, perguntar o que podemos fazer, disse o Papa Francisco, com a coragem de continuar a sua missão. Este é o tempo da solidariedade. E assim nos ligamos. Se encontrarmos propósito na circunstância que vivemos, a dor esvai, como a de Viktor Frankl nos campos de concentração ou a de Mandela na prisão… e seguimos a ser o que nos salva. Será mesmo o amor. Também já escrevi que não precisava do vírus para o saber, mas… intensifiquem-se os laços então. Olhemos por todos e não nos deixemos cair.

Por todo o lado, por este país pequenino, mas único, se constróiem estruturas anti solidão. Os Estados Unodos, o Reino Unido, a Dinamarca, a Holanda… o mundo inteiro está a dar a volta apoiando quem precisa. No meio da pandemia todos precisamos de nos proteger, mas há quem mais precise de ser cuidado e quem mais possa cuidar, organizemo-nos. E politicamente também. Para a união.

O mesmo texto prescreve, uso como síntese do que te escrevi: 1. continua a falar com os teus diariamente, por videochamada para ouvires a voz e veres o rosto. Marca jantares em conjunto desta forma. (Já lancei esta proposta). 2. Usa tempo livre de distrações no momento em que estás com os outros, fica realmente presente. “Em especial quando o tempo é limitado, a qualidade é essencial”. 3. Fica só e usufrui disso. Aprender a gostar da própria companhia poderá ser um antidoto para circunstãncias de adversidade. Sem tecnologias. 4. Aparece e ajuda os outros. Há muitas aplicações ao teu dispor para que te inscrevas como voluntário/a, há com certeza vizinhos mais velhos ou de risco… procura-as. Os jornais locais todos os dias divulgam carências. Usa o meu e-mail para que te ajude: [email protected].

“A empatia não é finita”. Podemos e devemos estar juntos socialmente. Estarei por cá. E disponível. Separados, mas juntos em hastag. Força desse lado! A Páscoa será diferente, mas que seja feliz! Até já.

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