André Gomes da Silva

Opinião. (Que) futuro quartel dos Bombeiros Voluntários de Braga

Tem sido noticiada a concretização de uma nova solução para o futuro quartel dos Bombeiros Voluntários de Braga (BVB). Pese embora este anúncio esteja mais próximo de ser uma realidade (do que aqueles que foram anunciados nas últimas duas décadas), impõem-se várias questões.

Em primeiro lugar, urge sublinhar que os BVB sempre se destacaram pela localização central, facto que representa um contributo estratégico no âmbito do socorro à cidade de Braga.

Considerando que a principal quota-parte dos serviços prestados por esta corporação está direccionada para a pré-emergência hospitalar e para o transporte de doentes não urgentes, importa questionar se estará em causa a perda de celeridade operacional que decorrerá de tal afastamento.

Considerando que Companhia de Sapadores Bombeiros também está situada numa zona do concelho em que os acessos são caóticos (nó de Infias), seria útil que as entidades competentes referissem quais foram os critérios operacionais que estiveram na génese da localização do futuro quartel dos BVB.

Trata-se de um facto consumado pela mera indisponibilidade imediata de outra localização mais vantajosa?

Estamos perante um facto que vale apenas pela construção de novas instalações?

Será que foram tidos em conta critérios objectivos e operacionais?

Confesso que ainda não encontrei qualquer argumento que justifique a futura localização, mormente do ponto de vista de uma mais-valia operacional.

Todavia, quero acreditar que a Autoridade Nacional de Protecção Civil e a Câmara Municipal de Braga tenham essa premissa bem presente.

Em segundo lugar, importa destacar a base sociológica do corpo activo dos BVB.

Ao longo da sua história, fruto da localização privilegiada, esta corporação “citadina” conseguiu inverter o estado de desertificação que tem atingido as associações humanitárias (corporações de bombeiros voluntários).

Tal facto deve-se a uma base de recrutamento que vai beber às escolas e às universidades.

Com efeito, não deixa de ser preocupante que a principal fonte de recursos humanos dos BVB esteja a ser relegada para segundo plano, em prol de uma localização que não tem justificação operacional (pública, pelo menos).

A quantos minutos de distância se situará o novo quartel em relação à Universidade do Minho ou às escolas secundárias do concelho que têm estado na génese de tantas gerações de bombeiros?
E no que concerne aos acessos?

Estarão estes jovens (na casa dos 17, 18, 19 anos e que, não raras vezes, nem sequer dispõem de carta de condução) servidos de transportes públicos?

Quais as consequências que podem decorrer de tal afastamento?

Ademais, esta corporação, pelo menos até 2006, beneficiou da mais-valia de uma adesão excepcional por parte dos seus voluntários.

Mormente em situações de segundo alerta, em que a mobilização exigia uma presença mais musculada, era possível colocar todos os meios em vários teatros de operações em poucos minutos, fruto da proximidade dos seus voluntários ao quartel.

Ou seja, com isto quero recordar que a base sociológica do corpo activo está centrada na cidade, nas freguesias, nas escolas e universidades do núcleo citadino.

Com a relocalização do novo quartel numa freguesia limítrofe e afastada das reais necessidades operacionais, prevejo que as corporações de outros concelhos (à imagem e semelhança do que já acontece, fruto da falta de pessoal que afecta a corporação de voluntários bracarense), continuem a socorrer o centro de Braga.

A força motriz de uma corporação são os seus operacionais e não as futuras instalações que correm o risco de ser inócuas, no que concerne à verdadeira utilidade: potenciar a operacionalidade (algo que não se faz apenas com novas paredes e camaratas).

É certo e sabido que o actual quartel dos BVB não dispõe de condições para os operacionais. Trata-se de um facto que se arrasta há 15 ou 20 anos, mesmo quando a corporação tinha o dobro dos operacionais (reais).

Podem perguntar (de forma legítima), qual seria a solução?

A solução devia ter sido procurada em conjugação de esforços com as autoridades de socorro, impedido que isto se tornasse num negócio entre uma associação e um promotor imobiliário.

Ao longo dos mandatos autárquicos, o actual executivo da CMB tem demonstrado disponibilidade para criar excepções ao PDM, mormente quando estão em causa interesses privados na área da hotelaria e do retalho.

Seria de todo impossível rever uma opção que foi tomada há duas décadas?

Seria de todo impossível encontrar uma nova solução, contrariamente à localização que ninguém deseja ou (sequer) consegue justificar do ponto de vista operacional?

É uma opção que se resume à mera disponibilização de espaço?

Foi este o critério operacional?

Para terminar, antevejo um maior afastamento desta corporação em relação à população bracarense.

Os bracarenses estiverem sempre habituados a ter os seus voluntários bem próximos, pese embora o desprezo que tem sido votado à corporação, mormente pelo tecido empresarial.

Não obstante o esforço que a actual direcção tem levado a cabo, no campo do pagamento aos fornecedores e da recuperação de uma imagem que se perdeu com a anterior gestão, nota-se uma total falta de dinâmica.

Dinâmica que tem que estar presente no âmbito destas instituições.

Só assim se explica que corporações de pequenas vilas e cidades consigam tanto junto das suas populações.

Não basta verter lágrimas e apontar o dedo ao desprezo nutrido pela população.

Urge criar valor, mostrar que a instituição pode criar serviços que são úteis ao concelho, nomeadamente no campo da formação profissional, realização de simulacros (que, por sinal, são obrigatórios), conversar com as empresas do concelho com o propósito de se mostrar que os BVB estão em condições de criar situações vantajosas para todas as partes.

Estamos num mundo em que ninguém dá nada a ninguém e a lengalenga dos heróis sem capa perde-se no esquecimento.

Braga tem um tecido empresarial dinâmico, cada vez mais voltado para a responsabilidade social.

Uma corporação de bombeiros não pode ficar satisfeita com paletes de água que são oferecidas no Verão.

Não pode lamentar-se pelos cantos.

Exige-se ousadia e estratégia.

Para pagar aos fornecedores basta ser honesto e qualquer pessoa serve.

Para revolucionar uma instituição é necessário génio.

Faltando respostas objectivas, fundadas em critérios operacionais que justifiquem a localização do novo quartel dos BVB, resta-nos constatar que este será um excelente negócio para o promotor imobiliário.

Fica por saber se a protecção civil bracarense ficará melhor servida.

Mas esta é uma pergunta que já devia ter sido respondida pelas entidades competentes.

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Advogado, antigo operacional dos BVB, ex membro da Assembleia Municipal de Braga (e respectiva comissão de protecção civil)

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