Aires Fumega

Opinião. 25 de Abril é de todos?

Ultimamente generalizou-se esta expressão: «O 25 de Abril é de todos».

Mas será? Não creio que assim seja. O 25 de Abril é de quem o fez, de quem lutou por ele e de quem faz tudo para o manter vivo. Os seus efeitos, esses sim são para todos. Até porque o 25 de Abril , deu a liberdade de qualquer um falar contra o próprio 25 de Abril. Mais nenhum outro sistema permite fazer isso, que não o sistema democrático.

No entanto, a essência do 25 de Abril está a perder-se. Urge a necessidade de pegar em tudo o que era o 25 de Abril e colocar permanentemente em prática. A desinformação e a falta de necessidade de lutar pelas liberdades, criou uma falsa sensação que o 25 de Abril é apenas uma mera data. A ameaça de um reverso na história, deixou de ser temida. Passou então a ser defendido por uns e atacado por outros, muitas vezes conforme a sua ideologia política.

É fácil dizer da boca para fora que “a liberdade de um acaba onde começa a liberdade de outro”, quando isso apenas serve para fazer o tal discurso bonito que poderia ser substituído pelo “olha para o que eu digo, mas não olhes para o que eu faço».

O que se vê é uma grave falta de sentido crítico, sobre tudo o que rodeia o indivíduo, aliada a uma ignorância do seu próprio posicionamento no mundo. Não adianta estudar, estudar, ler, ler, para no fim de contas, não deixar de existir um grande défice de tolerância e de haver uma grande crise de empatia (não confundir com simpatia) pelo semelhante.

Uso aqui a palavra semelhante propositadamente, pois é disso que se trata. Vivemos na parte rica do planeta e isso deu-nos um estatuto bacoco, que nos fez superiores aos outros. Uma espécie de complexo de superioridade tanto infantil, quanto senil. Agora que a Europa conhece a fragilidade da sua abertura ao mundo, pensou que poderia comer só a carne e deixar os ossos. O populismo das correntes de direita radical, aproveitou-se dessa crise de identidade dos europeus e da arrogância de pensarem que não precisam dos outros, para cavarem ainda mais as diferenças.

Portugal, país com milhões de emigrantes, passou a dizer aos seus imigrantes “vão para a vossa terra, que aqui não fazem falta”. Não entendemos que o que os imigrantes nos “roubam”, é aquilo que os nossos “roubam” aos outros países. Um mundo global só funciona com trocas permanentes de matéria prima, produtos acabados, tecnologia, energia e mão de obra. A riqueza cultural dos países mais desenvolvidos, resultou da mistura de culturas dos vários povos. A partilha de conhecimento deu origem a uma evolução sem precedentes.

Mas à parte destas fronteiras que muitos querem fechar, existem outras fronteiras internas, baseadas em critérios de diferenciação do acesso à cultura, ou a bens essenciais como a educação e saúde.

Não pode fazer seu, o 25 de Abril , quem não sabe, ou não quer saber, que na génese do 25 de Abril , está a liberdade, mas também a igualdade. Porque o 25 de Abril alimenta a utopia de um mundo mais justo para todos.

Quem orienta os seus valores baseando-os na discriminação, xenofobia, racismo, homofobia e outros, não chegou ao 25 de Abril de 1974. Para esses o calendário nunca passará do 24.

 

 

 

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