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Opinião. Ainda sobre as comemorações do 25 Abril na Assembleia da República

“Olha para o que digo, não olhes para o que faço…”

No próximo dia 25 de Abril, iremos celebrar e bem o dia mais importante para Portugal, o dia da Revolução dos Cravos. Cresci, aprendendo a importância deste dia e faço questão de o sentir. Pois apesar de ainda não ser nascido na altura da revolução, sei bem a importância que a luta e o esforço de muitos tiveram, para hoje sermos livres para viver o nosso quotidiano, e até para escrever este artigo.

No entanto, este ano, estamos numa situação inédita, sob um Estado de Emergência Nacional decretado pelo Governo, no âmbito da Estirpe do COVID-19, o qual nos obriga a estar confinados em casa, permitindo sair apenas em situações excecionais, proibindo o ajuntamento de pessoas e consequente contacto social. Encontramo-nos perante uma pandemia que infelizmente, devido à sua taxa de letalidade e propagação elevada, nos obriga a estas restrições de liberdade, mas que são para nossa proteção.

O dia 25 de Abril irá acontecer no meio destas restrições todas, e temos assistido nos últimos dias a discussões, na imprensa, nas redes sociais, nos media televisivos, onde são várias as opiniões acerca do modo que o Governo decretou a sua celebração este ano. Tendo o mesmo decidido realizar na mesma a sessão solene na Assembleia da República, com deputados e convidados, ultrapassando a centena de pessoas. Comparando com anos “normais”, podemos constatar que se trata de uma “pequena” cerimónia, mas mesmo assim “inaceitável” em termos sanitários.

Mas não é sobre a proporção de ser grande ou pequena, que muitos portugueses contestam. A grande contestação prende-se com as restrições aos quais estamos todos obrigados, sob pena legal, em caso de incumprimento. Pois se para a população em geral existe estas medidas, como é que o Sr. Presidente da Assembleia da República, autoriza este tipo de celebrações? Não deveriam os nossos governantes darem o exemplo? Mostrarem ao povo português a sua solidariedade, o seu compromisso, o seu dever, e dignificarem a decisão do Sr. Presidente da República, o qual decretou o próprio Estado de Emergência e as suas respetivas medidas?

Pois bem, não é isso que foi decidido, tendo inclusive, à hora deste artigo surgido uma notícia na qual o próprio Presidente da AR, teria dito que não se usariam máscaras na cerimónia referida. Perante isto, e perante esta prepotência governamental, não posso deixar de mostrar o meu desagradado enquanto português e enquanto cidadão.

Nas empresas, existe um princípio que o “patrão” deverá ser o exemplo para os seus funcionários, construindo uma imagem corporativa igual a si próprio. Fazendo uso de uma analogia, no Governo não deixa de existir o mesmo princípio. O exemplo vem de cima, já diziam os antigos.

Será que seria desrespeitoso para a memória de quem lutou no 25 de Abril, efetuar uma celebração diferente, apensa simbólica, e ao mesmo tempo transmitindo ao país e aos portugueses um exemplo de conduta? A título de exemplo, poderia ter-se decidido realizar uma cerimónia, com um representante de cada partido, o que me pareceria  viável,  e sendo transmitida nas estações de televisão nacionais. Um cerimónia simples, que demonstraria que os deputados estão com os portugueses, partilhando das mesmas restrições, respeitando as instruções da Direção geral de Saúde, ou seja, que estamos todos juntos.

Em conjunto com esta situação do 25 de abril, associada está a celebração do 1º de Maio – Dia do trabalhador. Foi decretado que neste dia há uma exceção que permitirá às pessoas sair à rua. Existe mesmo essa necessidade de celebração ? Quantos trabalhadores já perderam o seu emprego devido a esta estirpe? Quantas empresa já fecharam ou correm o risco de fechar? Sejamos coerentes!

Não sendo um exercício mental difícil de efetuar em relação ao modo de atuação nestas duas datas, esta decisão do Governo, poderá levar muitos portugueses a “baixar a guarda”, em termos preventivos e no fundo a descredibilizar quem nos governa.

Todos os dias temos a programação televisa a incidir sobre os boletins diários da DGS, sobre o cumprimento das medidas de restrições, todos os dias são emitidos números de óbitos a ocorrer, todos os dias nos recordam o quão importante é ficar em casa. Mas parece que para quem nos governa isto passa ao lado…

Ressalvo que não falo de aproveitamento político, pois se existe união política é neste momento, e disso ninguém tem dúvidas. Enganem-se aqueles que pensam dessa maneria, pois só mostrarão que sofrem do síndrome de “perseguição política”, confundindo argumentos com convicções.

Sou português, defendo e honro quem lutou e morreu no 25 de abril. Não posso admitir é que a prepotência política de alguns se sobreponha ao exemplo, que os detentores de qualquer cargo político devem ter e pautar a sua atuação.

Ser político não é só um cargo, é muito mais do que isso.

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