Manuel Antunes

Opinião. Covid-19: as lições para um futuro sustentável

Inevitavelmente esta pandemia faz-nos pensar no futuro com algum receio, recorda-nos de que todos nós partilhamos a mesma natureza humana e os mesmos interesses básicos. Para o vírus, não há qualquer diferença entre nós humanos, somos todos Homo sapiens. 

A grande vantagem dos seres humanos sobre o vírus é a sua capacidade de cooperação. Os países podem e devem unir-se no desenvolvimento de estratégias de combate ao coronavírus. Infelizmente, devido à falta de liderança, não estamos a retirar partido das nossas capacidades de cooperação. Nos últimos anos, políticos inconscientes têm deliberadamente minado a confiança na ciência e na cooperação internacional. Um exemplo atual é o corte por parte da Administração americana no apoio a entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde.

Face à atual situação, podemos retirar ilações importantes que devem ser aplicadas na luta contra o colapso ecológico. Em particular, a crise do coronavírus deverá ensinar-nos o alto custo de ignorar os piores cenários. Os países que pouparam dinheiro nos últimos anos cortando nos serviços de saúde vão agora gastar muito mais devido à epidemia. Da mesma forma, se tentarmos poupar dinheiro não fazendo nada em relação às alterações climáticas, isso também causará enormes prejuízos a longo prazo. Em apenas dois meses de redução da poluição na China, “salvamos” aproximadamente a vida de 4.000 crianças menores de 5 anos e de 73.000 adultos acima dos 70, escreve Marshall Burke, professor assistente no departamento de ciências do sistema terrestre de Stanford.

Algumas pessoas têm erradamente a ideia de que, crescimento económico e combate às alterações climáticas são dois cenários incompatíveis. Além disso considera-se que seria necessário um investimento considerável para a transição sustentável, quando na realidade basta apenas investir-se 2% do PIB Mundial no desenvolvimento de mecanismos e estratégias de combate à crise climática. No contexto atual, apenas a UE demostrou intenções de contribuir para esta mudança, propondo-se a liderar o caminho da neutralidade carbónica até 2050.

Os governos utilizam mais de 70% dos investimentos globais em energia. Os esforços desenvolvidos agora para estimular a atividade económica, ajudarão a determinar a forma de como as economias terão impacto nas emissões de carbono futuras. Aquando da criação de pacotes de estímulo económico compostos por infraestruturas e criação de emprego, há uma oportunidade real e vantajosa de investirmos no desenvolvimento, na implementação e na integração de energias renováveis, cidades e edifícios inteligentes, empresas sustentáveis e transportes ecológicos. Se fizermos uma análise ao setor constatamos que existe ainda uma enorme margem de evolução, podendo vir a ser no futuro um dos principais focos de crescimento da economia mundial.

Enquanto a pandemia do covid-19 é temporária, as ameaças de catástrofes naturais com consequentes perdas de vidas humanas permanecerão durante anos se não forem tomadas medidas. Quanto mais eficiente for a gestão da economia verde, melhor estaremos a gerir a saúde humana.

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