Samuel Estrada

Opinião. Os sonhos e as ameaças de Abril

As celebrações do 46º aniversário da Revolução de Abril (em Vila Verde, tristemente, limitadas ao hastear da bandeira) são assombradas por um inimigo, invisível mas já lendário, chamado Covid-19, que determinou a declaração do estado de emergência com as inerentes limitações à liberdade durante o mês em que ela, ironicamente, se celebra.

Temos, por isso, redobradas razões para assinalar com entusiasmo o momento em que pusemos termo à ditadura que condenou Portugal e os portugueses à miséria, ao isolamento, ao analfabetismo e ao obscurantismo do medo durante intermináveis décadas numa espécie de “coma” sócio-político a que fomos reduzidos e do qual despertamos naquela “manhã clara” da primavera de Abril…

Todavia, a democracia, a liberdade e os sonhos de Abril não foram, ainda, totalmente alcançados nem são, tão pouco um direito adquirido, são uma uma luta contínua contra ameaças permanentes das quais destaco quatro que têm manifestações quer a nível nacional, quer a nível local:

1. A corrupção é sem dúvida uma das maiores pragas da democracia, que para além de causar prejuízos materiais ao estado, é fonte de degradação da vida pública, descrédito das instituições, erosão do carácter, desmoralização e de descrença da classe política e da própria democracia. O combate à corrupção merece por isso a nossa atenção inteira e dedicação absoluta.

2. A liberdade de imprensa e de expressão foram as vitórias mais rapidamente alcançadas com a revolução de abril que determinou o fim da censura. Mas volvidos 46 anos será que podemos dizer que a imprensa é de facto Livre? E subordinada apenas à verdade? Sentimos cada vez mais a imprensa algemada a linhas editoriais ocultas e condicionadas por grupos económicos a nível nacional e ao nível local a um sistema de dependência da “ordem estabelecida” que a alimenta miseravelmente. Não espanta, por isso, que a impressa se dedique tantas vezes – ora de forma subliminar ora de modo declarado – a campanhas promoção ou de aviltamento. A democracia precisa de controlo e equilíbrio de poderes e por isso não pode viver sem a verdade que só uma imprensa livre garante: a verdade quando é inteira ilumina, dispensa vinganças e abre as portas para a reconciliação e para a criação.

3. A degeneração dos partidos é outra ameaça aos sonhos de abril. Proibidos até à revolução, os partidos são essências a uma democracia porém desde cedo foram substituindo as convicções pelas ambições. Essa ambição deixa para segundo plano os objectivos primários dos partidos obrigando-os a fazer constantes perversões e concessões ao seu ideário para alcançar o poder (que se tornou um fim). Uma vez no poder, os partidos voltam a adiar os seus ideários e caem numa nova tentação: a luta pela sua manutenção. Isto obriga-os a maiores e perniciosas concessões das convicções (quando ainda as há) gerando assim, sobretudo ao nível local, uma fauna política complexa que se serve do poder para se perpetuar nele criando uma “teia”que parece, muitas vezes, inquebrável!

4. Os ventos populistas são também uma ameaça séria à democracia e crescem a cada dia animados pela eleitoralismo e pela demagogia primária esquecendo o bem comum e vivendo para agradar, para caçar likes e partilhas nas redes sociais, para a popularidade, para a mentira, no fundo, ignorando a responsabilidade social indispensável às democracias.

Mas não podemos deixar que os sinais de arrivismo, de obsessão do poder, de ganância, de corrupção e outras ameaças à democracia que sem têm manifestado nos conduza ao desencanto.

Aproveito, assim, para exortar os vilaverdenses para que continuem a exercer a liberdade e a cidadania. Não apenas a liberdade formal mas também a efectiva, aquela que se faz sem medo do (des)emprego, da licença, do subsídio , do muro, do amigo, da promessa …

Afinal a luta da democracia ainda agora começou e ninguém se pode demitir ou dar ao luxo e à irresponsabilidade de baixar os braços. A democracia não sobrevive com cidadãos não praticantes. A democracia não pode ficar ao abandono. Carece de cultivo e dos cuidados de cada um de nós, só assim poderemos controlar estas pragas e outras que a invadem. Só assim cumpriremos os sonhos de Abril…

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