Braga

À conversa com… Inês Alves Caetano, fundadora da Sports Embassy

“… o que é que queremos que seja o Desporto para nós enquanto sociedade?”

Foi uma decisão rápida a de conversar com a minha interlocutora desta vez. Temos falado bastante e acompanhando as suas batalhas, não havia como não a chamar até ti. A Inês é única, diria que dona de um espírito combativo e de uma garra comum aos que estão preparados para resistir e continuar a empreender pelo que acreditam. Se for preciso, ela levanta-se e faz ouvir a sua voz, mesmo que todos os restantes lhe sejam opostos…

Andreia Santos: Olá Inês, obrigada por teres aceite esta conversa, que mesmo sendo feita à distância, irá acrescentar a quem nos lê. Tenho uma admiração profunda pelo dinamismo que te fui reconhecendo. Esse mindset veio de onde? 

Inês Alves Caetano: Muito obrigada, Andreia! Em primeiro lugar, pela oportunidade de divulgar um pouco mais a Sports Embassy e, depois, pelas tuas palavras. Este dinamismo foi crescendo. Olhando para trás não diria que nasceu comigo, mas foi algo que fui trabalhando e que hoje considero que faz parte da minha forma de estar. Caí umas quantas vezes ao longo deste caminho e acho que o facto de ter aprendido a levantar rápido (também no desporto) ajudou bastante.

A.S.: Foste atleta, fala-me um bocadinho do teu percurso até à fundação da Sports Embassy?

I.C.: Não sei se posso dizer que fui Atleta quando penso nos grandes nomes do nosso Desporto. Tive uma passagem pelo Desporto, desde muito jovem mas, infelizmente, com alguns momentos menos bons que me fizeram abandonar a competição ainda muito jovem com uma “guia de marcha” que dizia que dificilmente voltaria a andar como “antes” e que sair de casa para a minha vida normal seria, por si só, um treino intervalado (andar 3 minutos, parar 2). Mas levantei-me, mostrei-lhes que estavam errados, voltei a entrar em competições nacionais, mas não na minha modalidade (vinha do Pentatlo Moderno e acabei por manter-me na esgrima até passar para o rugby), e apenas para mostrar a mim própria que tinha vencido sem ter, no entanto, objectivos competitivos em termos de resultados desportivos. A partir daí foi perseguir um sonho que era chegar aos Jogos Olímpicos numa outra função que não a de Atleta – segui a área do treino, estive 10 anos ligada à formação e ao treino personalizado, para depois chegar à área da gestão desportiva relacionada sobretudo com a organização de grandes eventos desportivos. Até que chegou um dia, perante uma adversidade, voltei a sentir-me com 17 anos, como quando me disseram que dificilmente voltaria a andar, e decidi que era a altura de fazer alguma coisa pelos Atletas.

A.S.: E assim nasceu a Sports Embassy. Deduzimos muito do que disseste, mas qual é em concreto a missão da SE?

I.C.: Se fosse numa palavra, diria que são os Atletas. Aprofundando um pouco mais, a Sports Embassy tem como missão servir o Desporto e colocar o Desporto ao serviço das organizações empresariais através dos (ex)Atletas. Queremos mostrar às empresas as mais valias de contarem na sua estrutura com recursos humanos formados, ao nível das competências, no Desporto. Por outro lado, queremos mostrar aos desportistas que são mais do que Atletas, que eles  se capacitem das competências que adquirem no Desporto, reconheçam-nas e saibam aplicá-las nos mais diversos contextos fora do Desporto. Acreditamos que podemos contribuir para a agregação de valor ao mundo empresarial e desportivo enquanto agentes facilitadores no relacionamento entre ambos e, sobretudo, pelo trabalho que desenvolvemos de forma personalizada na preparação dos Atletas para esse mercado de trabalho.

A.S.: O que falta ao nosso país para termos maior consciência da pessoa para além do atleta? É possível acrescentar visão ao modo como vemos o desporto? 

I.C.: Bem… pergunta difícil porque falta muita coisa! No meu entender o problema vem de base: cultura desportiva. E isto aprende-se na Escola, enquanto instituição, e não é um tema apenas dos professores de Educação Física. Podes ter livros sobre Desporto no Plano Nacional de Leitura, por exemplo. É importante transmitir às crianças a diversidade de modalidades desportivas que elas têm ao seu alcance, que podem experimentar e que lhes dá uma formação ao nível físico, emocional, social, cognitivo, fisiológico e de desenvolvimento motor muito mais alargada e transversal. Mas muito importante também é dotar as crianças da consciência, por um lado, da importância da prática da actividade física e os seus benefícios, mas saber ensinar-lhes que estes não estão só relacionados com a saúde, mas tratam igualmente da aquisição das tais competências que falávamos anteriormente. E isto pode ser trabalhado em outras disciplinas em conjunto com a Educação Física.

Quanto mais “sentes na pele” mais compreendes o outro. E só assim consegues que estas crianças e jovens se tornem adultos muito mais conscientes daquilo que é o Desporto, conhecendo as suas várias vertentes, realidades e, consequentemente, tenham uma maior capacidade para entender quem está do outro lado. E isto seria benéfico não só porque estas crianças um dia serão pais que podem transmitir isso aos seus filhos, mas também porque um dia poderão ser Atletas, dirigentes, treinadores, árbitros, legisladores ou qualquer outra profissão que tenha de pensar e estruturar o Desporto. E, muito importante, todos serão espectadores. Para mudares a visão é preciso mudares alguma coisa; se não mudas nada ficará tudo na mesma. A grande questão, para mim, é: o que é que queremos que seja o Desporto para nós enquanto sociedade?

A.S.: O que é emocionalmente mais impactante neste trabalho? 

I.C.: Claramente lidar com emoções. Não consegues trabalhar com Atletas no sentido de preparar a transição de carreira sem lidares com o lado emocional da pessoa. No fundo nós não trabalhamos com o Atleta. Nós trabalhamos com uma pessoa que é Atleta. E acho que isso é que diferencia o nosso trabalho, a nossa abordagem ao tema e a forma como comunicamos.

A.S.: Há dificuldades de certeza. O que poderia ajudar a Transição de Carreira dos atletas de alta competição a estar em campo? 

I.C.: Para competires em alta performance o lado psicológico é muito importante – há a velha máxima dos 80/20, certo? Portanto o Atleta tem de estar bem resolvido relativamente a todos os assuntos que possam criar alguma instabilidade e preocupação. É baseado nesta questão que hoje, em muitos Clubes, existem gabinetes de apoio ao Atleta, de forma a minimizar os problemas de dia-a-dia que lhes possam surgir, ou às suas famílias. No entanto, não há nenhuma estrutura transversal a todos os Atletas e a quem eles possam recorrer que trabalhe com eles no sentido de minimizar o impacto que a incerteza do pós-carreira pode ter. E nem precisa ser pela idade. Há Atletas a quem a possibilidade de uma lesão afecta mais do que a outros. E é preciso trabalhar tudo isto de forma a potenciar a prestação no terreno competitivo.

A.S.: O desporto esteve fora de campo e está a ser estudado o regresso. Esta é uma fase de paragem para os atletas e isso pode certamente ter consequências… Sei que a SE tem apoiado este confinamento. Podes falar sobre isso?

I.C.: O Desporto tal como o conhecemos poderá, eventualmente, ter terminado. A nível global fala-se de uma “nova era” e o Desporto relaciona-se com todas as áreas da nossa sociedade – desde a financeira, à legislativa, passando pela saúde e até pelo entretenimento… não há nada que possa mudar sem afectar o Desporto. Nesse sentido, e porque a nossa abordagem ao tema da transição de carreira é sempre pela positiva, quisemos manter o registo e temos dado dicas diárias para manter os Atletas focados na rotina. Não somos nós que vamos dizer como e quando cada um vai treinar, mas podemos contribuir com outro tipo alertas e sugestões, muitas vezes dadas por outros (ex)Atletas: quer seja um livro, um prato para cozinhar ou uma série para assistir, passando por temas como os estudos ou a importância do networking. Agora queremos ajudar a divulgar negócios de (ex)Atletas porque sabemos que na hora de consumir é importante se tivermos uma relação empática com o produto / empresa, e um Atleta revê-se em outro. Criámos também uma rúbrica designada “Transição Rápida” que consiste em lives no Instagram, três vezes por semana, em que os anfitriões são (ex)Atletas que se revezam e se repetem a cada 15 dias, que têm conversas com outros (ex)Atletas e tem sido muito interessante. Iniciámos hoje (segunda-feira) a segunda temporada e está a ser muito interessante! Todo o conteúdo está disponível no nosso canal YouTube e também no Spotify.

A.S.: Como estão a reagir os atletas com quem vais falando ao isolamento e paragem? 

I.C.: Ao isolamento em si, acho que melhor que qualquer outra pessoa por uma razão muito simples: o Atleta de alto rendimento está habituado a estar privado da vida social em diversas fases da sua vida; é alguém com muita apetência para a rotina (aliás, a falta dela é um dos maiores problemas do pós-carreira) e muito focado. Este período pode ser comparado com um estágio, com períodos competitivos, etc. O Atleta está também acostumado a viver um jogo / competição de cada vez, a reajustar objectivos, a “mudar” o chip depois da vitória / derrota porque há mais caminho pela frente. A grande questão é a incerteza associada à sua actividade. Parte dela está resolvida, com a definição do adiamento dos Jogos Olímpicos e do término dos campeonatos ou competições. No entanto, há outras indefinições que talvez sejam as mais importantes neste momento para os Atletas, como questões contratuais e financeiras. Sobre este assunto julgo que muitos Atletas estão a ter uma maior dificuldade em lidar porque ainda não há respostas definitivas.

A.S.: Tu também estás a trabalhar em casa. És uma empreendedora. Como tem sido esta fase e conciliar a missão da SE com a vida?

I.C.: Não é fácil porque tenho uma filha que exige muito de mim nesta fase. A Escola, durante este período, assumiu um papel de grande relevo na vida das famílias com um nível de exigência elevadíssimo para todo o agregado familiar e, por isso, há períodos menos fáceis de gerir. No entanto, a questão do isolamento em si, não me afecta muito. Mantenho muitas rotinas em termos de horários, alimentação e treino no meu dia-a-dia. Isto para mim é muito importante e são aspectos em que sou muito disciplinada por isso os meus dias não sofreram grandes alterações no que a isto diz respeito. Por outro lado, também sou muito terra-a-terra e vivo um dia de cada vez. Geralmente não sofro por antecipação (ou tento disciplinar-me nesse sentido) e isso nesta fase ajuda muito. Há dias menos bons, logicamente, e fomos obrigados a reestruturar a Sports Embassy o que às vezes se torna frustrante. Mas, no geral, posso dizer-te que o balanço (até agora!) é positivo.

A.S.: O que diria a quem quer lutar por uma causa?

I.C.: Que aprenda a cair para se levantar sempre rápido.

A.S.: Que mensagem tens para os nossos atletas?

I.C.: Gostava de ir ao encontro daquilo que é o trabalho que desenvolvemos na Sports Embassy com os Atletas, fazendo o paralelismo com o que vivemos nos dias de hoje: que tenham a capacidade de perceber, analisar, trabalhar, potenciar, as competências que estão adquirir nesta fase (por um lado), mas também que aproveitem este período de paragem competitiva para trabalhar a sua preparação para a sua vida durante o Desporto com todas as incertezas que temos ao dia de hoje mas também tendo em conta o que poderá vir depois do Desporto. “É melhor estar preparado para uma oportunidade que não chega do que chegar uma oportunidade e não estarmos preparados”. Não sei de quem é a frase mas se já se adequava antes, agora ainda mais.

A.S.: Podes revelar próximos projetos ou planos da SE? 

I.C.: Como te disse anteriormente, estamos numa fase de reestruturação pois o planeamento que tínhamos desenhado não está adequado ao período em que vivemos. Os nossos planos mantêm-se e estão relacionados com a área da formação no sentido do desenvolvimento e treino de competências, quer de Atletas, quer de empresas. O que estamos a fazer neste momento é a reajustar a forma como vamos desenvolver estes planos.

A.S.: E a tua missão? Em que acreditas muito na vida? E o que te ajuda a continuar? 

I.C.: Acredito que a missão que cada um tem somos nós próprios. Se não acreditarmos nisso torna-se difícil definirmos objectivos. Procuro melhorar a minha capacidade de me conhecer, de reconhecer os meus erros, tentar encontrar formas de melhorar as minhas fraquezas e nem sempre isso é possível! Gosto de procurar o equilíbrio e acredito que o caminho certo é aquele que nos permite sermos fiéis a nós próprios, mesmo que muitas vezes pareça (e talvez até seja) o caminho mais difícil. O que me ajuda a continuar é aceitar. Aceitar as coisas menos boas, tentar aprender com elas e agradecer por isso. Aceitar as coisas boas, desfrutar delas, agradecer também, mas não me satisfazer com isso.

A.S.: Obrigada Inês pelo legado da tua experiência e pela forma objetiva e sincera, até intimista, com que foste dando respostas. Foi uma honra ter estado à conversa contigo. Para o futuro espero mais desse trabalho importante e resultados merecidos. A ti, em particular, desejo a recompensa por tanto esforço, criatividade e de facto resiliência. (A bater palmas)!

Comprometo-me perante ti que nos lês a fazer a divulgação dos méritos da Inês e dos atletas e ex-atletas com quem trabalha. É com gosto que se observa e se fica do lado da Sports Embassy a da sua mentora. Não deixes de seguir a SE nas redes sociais: Instagram, Linkedin e Facebook e ficar a par de tudo.

 

 

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