Andreia Santos

Opinião. Afirmatividade

Como estás? Espero que com saúde. Hoje continuo a querer falar contigo da vida… da vida que existia antes e agora que é a mesma, não parou apesar de ter suspendido ritmos e alterado quotidianos. Se tens a sorte e a responsabilidade de estar por cá, este texto é sobre ti, sobre mim que felizmente to posso voltar a dirigir. Quero falar-te do modo como algumas pessoas me foram descrito também os momentos de confinamento. E das consequências disso para o agora e o depois do agora quando tudo passar a sério. Não voltaremos a ser os mesmos isso não será possível, mas só porque crescemos se assim der, espero que sim. Enquanto pessoas e isso incluí enquanto seres sociais.

Tens gostado da tua companhia? Este também tem sido um tempo em que talvez consigas avaliar se tens conforto ao estares contigo. Aprofundar a tua relação contigo. Se por acaso não tens podes tentar ficar mais perto. E aumentar o teu grau de liberdade. Isto não significa não respeitar a presença de quem gostamos, muito menos deixar de esperar o que naturalmente se espera de quem se diz próximo. Mas sim, não ser dependente e estar apto a fazer boas escolhas emocionais.  Só quando honramos o que somos e deixamos de precisar de estar constantemente em contacto com os outros podemos verdadeiramente valorizar o contacto com os outros. Tens provavelmente sentido saudades de algumas pessoas e situações, mas como será possível sentir saudades sem saber viver da ausência e da consciência dela? Saber estar sozinho connosco mesmos dá a possibilidade de compreender o que importa e não agir sem critério.

Algumas pessoas têm-me falado de outras, as que ligam a toda a hora e cobram que não lhes liguem. Se todos precisamos de adaptação a esta fase e muitas vezes de segurança dos outros isto vale. Mas deixa de contar quando se torna invasivo e na verdade não está a ajudar porque é sem usufruto. “Loneliness is when you’re missing people, aloneness is when you’re enjoying yourself.” Escreveu Anthony de Mello em Awareness. E continuou: “We must leave this go-go-go world of illusion and become aware. And this only happens, he insists, by becoming alive to the needs and potential of others”. Às vezes não estamos acordados para as necessidades que temos e por défice emocional então ficamos egoístas e roubamos as pessoas. Por vezes não estamos sozinhos, só não sabemos estar connosco de um modo confortável e honesto.

E quando não somos emocionalmente honestos perdemos tudo. A assertividade, que é um saquinho onde está a sensibilidade tem que existir. E essa começa por ti. Por acender a luz que não te deixa caminhar na sombra. Repeti uma frase parecida a esta durante anos nos cursos de Inteligência emocional que dei. Continuarei a fazê-lo, evocando Tagore.

Maior ou menor conforto em estar em casa confinado está intrinsecamente relacionado ao facto de seres mais ou menos introvertido. Os introvertidos por tendência gostam de estar sozinhos e conseguem melhor estar isolados. Isso não quer dizer que não vivam de afetos, mas precisam de mais tempo de sossego, de reflexão para agir e ganhar exposição. Ao contrário os extrovertidos gostam mais do contato permanente e não se cansam deste. Devemos saber respeitar isto, nos outros, mas igualmente em nós. Não há problema nenhum que tu não precises de tanto contacto, mesmo quando toda a gente presume que isso tem que acontecer. Nem sequer tens que justificar a tua necessidade de espaço.

Tenho vários pacientes introvertidos que sentiram até  alívio e bem estar em ir para casa. Já não está lá o colega que interrompe ou não têm que estar tanto tempo com pessoas depois de já terem a sua dose social diária recomendada. Os extrovertidos queixam-se mais da falta de estímulo. Independentemente desta análise, os dois precisaram de estar na sua companhia. E o que ajudou? Ser mais autónomo. Há poucos dias uma paciente disse-me: “precisei de olhar para dentro para me organizar” e é isso. Tinha deixado de ligar tantas vezes a pessoas e necessitado de se compreender primeiro.

Vários indicadores sobre a pandemia têm demonstrado que muitos dos que não praticavam exercício físico agora estão a fazê-lo e isso irá provavelmente ficar. O que é bom, muito bom. Há outras opções que poderão durar. O incentivo é o de que saibas cuidar de ti, do teu corpo: sono, alimentação e forma física, podendo até ser criativo/a. Isso fará com que te sintas bem na tua pele, com que vás ganhando orgulho em ti.  A autoestima fica saudáve. Podes aproveitar para te conheceres melhor ainda, meditando, refletindo. Como é seres tu? O que é que nestes dias te tem chamado mais? Isso ajuda a que possas regular estados emocionais e ganhar motivação para a tua vida mesmo, sem precisar da aprovação social. Nestas condições ganharás mais autenticidade e isso cativa. A afirmatividade é uma característica apreciada, mas acima de tudo permite que existas como és, tornaste corajoso/a quando percebes que é bom ser o que se é e estar do teu lado, mesmo que sejas diferente da maioria. Podes escolher estar feliz, apesar dos momentos em que naturalmente não estás e fazer atividades que te tragam prazer: tu decides. É também útil que sejas compassivo/amigo contigo e que não te sintas mal por não saber tanta coisa… Aceitar a imperfeição que temos a qualquer nível, permite que sejamos melhores e mais bonitos ainda. “Anyone who tells you that they have it all figured out is probably not a good person to listen to. The point is this: everyone is figuring it out as they go. Humility is good.” E esta fase pede contenção e um passo de cada vez, isto pode ser lucrativo enquanto processo que nos prepara para o incontrolável e imprevisível…

Um dia, depois de uma fase de vida mais atribulada, senti que precisava de trabalhar a minha emancipação, decidi pela primeira vez viajar sozinha para estar comigo e provar-me que conseguia estar bem, sem estar acompanhada. Foi especial. E nunca mais parei de o experimentar. De vez em quando faço pausas do mundo para poder voltar a ele. (Sendo uma ambivertida, mas mais introvertida, voltar ao mundo é imperativo, também sofreria de solidão se não fizesse, mas respiro porque me gasto… e isto está certo, demorei a aprender). Evidentemente, só te estou a tentar dar um exemplo do que podes fazer. Respeitando o teu feitio, podes não viajar, mas passar um dia sozinho/a… Mas faz isso.  Estares de bem contigo só pode fazer-te bem. E aos outros. Cria o teu caminho sem pedir opinião ou discorda se tiver que ser. Força desse lado, aproveita o tempo, Olha por ti e por nós. Até já! 

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