Opinião

Opinião. BIASED

Voltei às consultas presenciais. Irei manter o online, mas decidi, passados dois meses, em que tive tempo de me reencontrar e adaptar aos tempos, que estaria na hora de regressar. Este regresso não se faz sem cuidados, é com restrições e muitas, mas faz-se aberto, de coração grato e em plena presença. Foi bom descobrir que me fazia tanta falta estar, (ainda que de máscara e pezinhos de plástico e com desinfeções permanetes de espaços e mãos)… Não que não o soubesse, mas experienciar é diferente. O mais bonito e especial? Reencontrar as pessoas dos meus dias e perceber que algumas sabem que o são, mesmo quando nunca lhes disse, mesmo quando nunca sequer falamos… Desde há muito que vivo dos rostos das pessoas nas ruas, nos cafés e nos edifícios em que vou estando. Não sei o nome de quase ninguém, mas sei a expressão. Sei o olhar. E isso é absolutamente mágico. Os estranhos da nossa vida que se tornam familiares e sorriem e sorrimos… O menos bom e até triste? O que nos faz pensar… Não cumprir a expetativa de estar tudo igual… Não está por razões obvias e que tu conheces, mas também por aquelas de que se vão falando, mas que me parece que ainda não se tornaram claras. Houve negócios que fecharam e outros que mudaram de pessoas… foi duro entender que em dois meses muita coisa na vida das pessoas se alterou radicalmente e ficar a especular sobre onde é que elas estão, em que lugar, mas acima de tudo em que condição… Essas eu não vi e custou. Fazem mesmo parte da minha vida, nos meus cafés em silêncio e antes de uma nova consulta, (sempre fiz pausas entre pacientes, preciso disso, de os pensar para sentir…), em que via a filha mais crescida a chegar da escola, ajudar a mãe, as resminguices entre as duas e onde apesar de um cansaço algumas vezes presente se via rotina e família. E a mim me dava paz e distância e protegia o meu trabalho. Algumas pessoas eu não vi. Hoje é sobre isto que te quero escrever…

Há poucos dias recebi uma notificação de uma mensagem, um poema que se havia tornado viral. Fui ver e algumas partes dele fizeram sentido: “What if… a year so uncomfortable, so painful, so scary, so raw… forces us to grow? A year that screams so loud, finally awakening us… A year we … accept the need for change… Declare change. Work for change. Become the change…” Já o escrevi e reforço, não acredito em teorias apocaliptícas ou razões maiores para a existência da pandemia… Mas é factual que a jornada que vivemos trouxe a saliência de muitas questões nefastas à equidade entre pessoas: evidenciou a injustiça social e as dimensões estruturais equivocadas do mundo em que vivemos. Eu, como tu, vivo num lugar em que o racismo existe, em que a fome existe, em que a desigualdade entre homens e mulheres existe, em que nem todas as crianças podem estudar, em que algumas dessas crianças e outras e adultos também são violentadas… e a pandemia acentuou esta percepção e, (à parte todas as más intenções políticas, diria levianas e estúpidas, de distorção do importante tentadas por adultos com idade mental de 6 anos cá e lá), a vontade de virar a página… Felizmente. Isto também me colocou feliz. Sempre considerei que somos mais os que querem bem.

Não podemos continuar a não ver pessoas e não podemos continuar a não estar clarividentes sobre esta realidade. Foi a pandemia que acentuou as diferenças sim, mas em boa verdade e melhor dito, foram as diferenças que trouxeram mais diferenças… porque falta poder a algumas pessoas para existir. Porque a edificação política das sociedades consente que haja quem possa e quem não seja ouvido e visto. Porque miseravelmente se acredita em coisas sem saber que se acredita até, fruto de um viés de construção social incrível e contra todos. Precisamos de maior humildade, de estar menos certos das nossas perspetivas/assunções e do que julgamos saber e entender… A autora do livro Biased, explica bem como tudo se vai construindo sem que demos conta disso. Acredita que o racismo por exemplo se fundamente em enviesamentos advindos de estereótipos criados e perpetuados no tempo. É para mim evidente que por vezes é o ódio, mas não este que em larga escala mobiliza a dessigualdade. Antes, o que de facto não vemos. Uma base criada e falsa sobre o que somos. E isso é possível de transformar, usando caminhos que não o do insulto e o do dizer por dizer… “Nem o nosso caminho evolutivo ou a nossa cultura presente nos vaticina a ser hospedeiros destes enviesamentos”, Jennifer L. Eberhardt. O sub-título do livro explica: destapar o preconceito que modela o que vemos, pensamos e fazemos. E isto começa por coisas tão simples como conhecer verdadeiramente os outros com quem convivemos e se não convivemos passar a conviver. Subscrevo o Pedro Morgado quando twitta que o principal motor da intolerância é a falta de mundo, quando nos diz que há pessoas que nunca estiveram em contacto com outras muito diferentes de si e que isso ajuda a distorcer e a acreditar no estereótipo legado.

Assim, resta fazer-te o pedido: questiona-te mais. Por favor. Pensa. E acima de tudo vê. Temos que ver mais e estar mais para que não o deixemos de fazer. Daniel Pink incentiva: podemos ser mais exploradores da realidade, querer compreender mais que ter razão, confrontar as nossas opiniões com outras, perspetivar que quando nos enganamos podemos aprender… Acredito que podemos fazer mais sempre. Acredito que o mundo necessita dos que fazem, inspiram a acreditar, a aprender, a fazer mais e a tornar-se mais… de líderes. E que cada um de nós o poderá ser. A vida em pandemia não deixou de ser viver. Não há opção positiva senão ser anti o que não está certo. Regresso sereno e íntegro.

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