Aires Fumega

Opinião. Aquilo que nos eriça a pele

Das coisas mais incríveis que nos acontecem e que surgem de forma involuntária é o arrepio. O nosso corpo não tem um botão para eriçar a pele e levantar os pelos. Ou melhor, até tem. Mas não controlado de forma consciente.

A ciência explica o ato de arrepiar. Existe, segundo dizem, um pequeno músculo chamado “músculo eretor do pelo” que, quando é contraído, levanta os nossos pelos.

Para nós humanos, este músculo não tem, nem de longe nem de perto, a mesma função que tem para os animais. Mas, assim como outras coisas que temos no nosso corpo, é ainda a ponte que nos liga ao mundo animal e nos faz sentir como tal.

Nos animais, esse músculo que levanta os pelos é ativado pelo cérebro em situações de medo. Está diretamente ligado a uma descarga de adrenalina que prepara o corpo para a luta ou para a fuga. Com os pelos eriçados, os animais aumentam de volume e assim, de forma repentina, assustam os seus opositores.

Quando o corpo sente frio também é ativado o eriçar da pele, servindo para nos aquecermos, ou pelo menos para nos protegermos do frio.

O ser humano deixou de dar esta utilidade ao eriçar da pele, até porque os poucos pelos que tem não lhe servem de proteção contra nada. São apenas atributos meramente estéticos.

Por outro lado, não seria muito agradável ver pessoas assustadas ou agressivas com os cabelos em pé, a fugir ou a atacar.

Aquilo que nos eriça a pele é portanto bem diferente. Algo que nos desvia dos animais irracionais.

Sentimos um arrepio quando somos beijados, ou tocados em determinadas partes do corpo, quando estimulados nas nossas zonas erógenas. Isso causa um ligeiro incómodo e desperta-nos os sentidos. Algo que o nosso cérebro nos faz para nos preparar par a tal fuga, ou luta…

Quando ouvimos declamar poesia, muitas vezes não pelo conteúdo do que está a ser dito, mas pela forma de expressar de quem declama, isso provoca em nós um arrepio. Por vezes até nos faz sentir vergonha, pois sabemos que é percetível o nosso arrepio incontrolado. Por vezes até assamos as mãos pelos braços para baixar os pelos.

A música: talvez das coisas que nos eriçam mais facilmente a pele. Um simples “cantar à capela” faz um efeito quase imediato. Arrepia-nos até aos ossos. Se for ao vivo, ainda mais. Parece que a vibração da voz do cantor tem um efeito imediato em nós. Uma resposta automática no nosso corpo.

As diversas formas de arte podem ter esse mesmo efeito. Quando estamos em presença de um quadro de um pintor de que gostamos e que até então só tínhamos visto por fotografia, sentimos aquele arrepiar que nos incomoda e simultaneamente nos conforta.

Estas são algumas situações que nos arrepiam. Obviamente, cada um de nós se emociona e se arrepia com aquilo que mexe mais consigo. Seja ler um livro, assistir a um espetáculo, receber uma notícia, ou ouvir certas palavras.

O nosso arrepiar está ligado à nossa sensibilidade que nos é conferida pela nossa condição humana. Desde o berço somos seres muito sensíveis. Vamos mantendo essa sensibilidade. Podemos perdê-la, em resposta a certas agruras da vida. Mas também podemos recuperá-la. Sobretudo se não lutarmos constantemente contra ela.

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