Aires Fumega

Opinião. Mata e come

Ângelo era um miúdo com uns 10 anos. Tinha uma deficiência motora. Isso, no entanto, não o impedia de participar na maior parte das brincadeiras com os outros miúdos. Com uma perna maior que a outra e dificuldades em correr, não era um ponta de lança exímio, mas não ficava no banco. Jogava sempre, nem que fosse à baliza.

Um dia, o grupo de rapazes decidiu jogar num campo de futebol que não era habitual. A meio do jogo, um deles viu, numa quinta ao lado, uma pereira carregada do que pareciam deliciosas peras. Sem qualquer vedação, aquilo era uma dádiva. Correram então para a pereira. O Ângelo foi o último a chegar. “Como é que ninguém comia aquelas peras?”, perguntavam. O que não sabiam era da existência do Piloto. Um grande e temível pastor alemão: o terror da vizinhança. Não saía da quinta, mas não entrava lá ninguém.

Os miúdos avistaram o Piloto ainda ao longe. Já salivava enquanto corria, em direção a eles. Todos começaram a correr. O Ângelo, que tinha acabado de chegar ofegante, nem sequer tinha tocado nas peras, deu meia volta e fugiu também. Os outros miúdos conseguiram fugir. Ângelo sentia o piloto a aproximar-se. Ao longe já se ouviam os colegas: “Corre, Ângelo! Corre!”

O desespero apoderou-se dele. Parou por instantes, quase sem ar. Mas nunca baixava os braços.

Voltou-se para trás e correu em direção ao Piloto. A adrenalina deu-lhe um novo fôlego. O cão parou, atónito. Olhou para o rapaz, todo desengonçado, a correr direto a ele e fugiu assustado. O temível Piloto era então vencido por um rapazinho de 10 anos, com uma deficiência motora.

O brasileiro Ney Matogrosso, na sua música “Homem com H”, diz: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. É uma frase que representa a fatalidade. Qualquer uma das opções conduzirá ao mesmo desfecho: ser apanhado e comido pelo bicho.

A vida real pode ser assim. Mostra-nos um cenário tão negro, que é inevitável que o sentimento de desesperança nos assole. Todas saídas parecem fechadas. Sentimo-nos aquele hámster a correr sem parar na sua rodinha colorida, sempre em alta velocidade e sem chegar a lado nenhum. Ou então a letargia invade-nos o corpo e prende-nos os movimentos. A anedonia e o alheamento tomam conta de nós.

A vida real pode ser assim. Mas pode não ser.

Todos temos falhas e todos temos problemas. Até os problemas têm problemas.

O mal não pode estar sempre do nosso lado. Não devemos ser vítimas das circunstâncias ou das nossas próprias escolhas. Nem sempre em fuga. Nem sempre a desistir sem luta.

Temos que enfrentar. Olhar as adversidades, não com olhos vidrados de vítima, mas com a agressividade de um predador implacável que também somos.

O tempo de fuga dá assim lugar ao tempo do “mata e come”.

Pagamos com a mesma moeda. Como o pequeno Ângelo, de forma desengonçada, corremos sem parar, desta vez não a fugir, mas em direção àquilo que nos consome. Àquilo que nos suga as energias.

Matamos e comemos. Alimentamo-nos agora daquilo que nos fez mal. O medo, as incertezas, a inveja e a toxicidade das relações doentias.

Se correr o bicho come, se ficar o bicho pega. Mas desta vez, o bicho podemos ser nós.

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