Braga

À conversa com… Patrícia Labandeiro, Psicóloga, Coach, Peregrina, Empreendedora

“Acredito profundamente que todos os seres humanos são brindados com possibilidades incríveis…”

Conheço a Patrícia há anos e desde sempre que lhe reconheço a simplicidade dos lugares em que viveu no Norte. Sou fã da sua força interior. E observadora das suas vivências íntegras. Não poderia deixar de a convidar para conversar ainda mais quando agora te pode receber a ti em sua casa.

Andreia Santos: Olá Patrícia, obrigada por aceitares conversar comigo. Fico fascinada com as fotografias dos momentos que vou observando nas redes sociais da tua vida. Como se chega até aqui desta forma tão inspirada?

Patrícia Labandeiro: Antes de mais, obrigada por estares desse lado… a ti e a tantas pessoas que nos vão acompanhando e incentivando nesta fase de vida, com um novo projeto muito especial a nascer! Acho que o percurso só pode ser “inspirado” se formos tendo a coragem e humildade de nos questionarmos constantemente sobre o que nos faz sentido e sobre o que nos faz sentir. Vejo muitas pessoas presas a concepções, decisões e contextos que já não se enquadram nos seus valores e prioridades, que já não são fontes de energia e que já “pesam” demasiado… Habituamo-nos a associar seriedade a permanência e lealdade a rigidez. A vida está sempre a colocar-nos desafios, oportunidades e alternativas. Se aceitarmos que a transformação faz parte e se não nos deixarmos bloquear pelo medo da mudança, conseguimos ir fluindo e construindo novas realidades que se ajustem melhor ao que vamos descobrindo que somos e queremos. Em consulta, enquanto psicóloga, acompanho adultos cujas vidas estão muito desfasadas daquilo que são na essência e daquilo que os faria realmente felizes. Só é possível manter a inspiração se nos soubermos ouvir e moldar ao auto-conhecimento que temos em cada fase de vida…

A.S.: Como é que habitualmente as pessoas à tua volta te definem?

P.L.: Defendo que devemos alimentar mais o nosso lado de luz, positividade e esperança do que a faceta da sombra, da dor e do desânimo. Ambos devem ser conscientemente reconhecidos mas creio que um dos sentidos da nossa existência é sermos potenciadores do bem estar e da felicidade uns dos outros. Dito isto, as pessoas à minha volta conseguem absorver esse lado que todos os dias nutro e acarinho. Vêem-me como um pessoa apaixonada pela vida e aberta às experiências. Dizem que isso é “inspirador”. Recebo este feedback como um resultado positivo de algo que intenciono e busco em consciência: incentivar os outros a descobrirem e viverem as suas paixões e a abrirem-se com esperança e garra ao que a vida tem para nos oferecer. Se alguém se sentir impulsionado pela minha experiência ou mensagem a uma qualquer ação que o coloque mais perto de um sonho seu, então também estou a concretizar o meu! Acredito profundamente que todos os seres humanos são brindados com possibilidades incríveis de construírem o seu bem estar. (Tenho contudo de ressalvar que nestas generalizações me refiro às pessoas que vivem em países e em circunstâncias socio-políticas e económicas em que os direitos humanos e os limiares de qualidade de vida estão garantidos.)

A.S.: És uma mulher dos mil ofícios. Mas bem sucedida. És Psicóloga, Coach, formadora, consultora, gestora do Albergue Quinta da Quinhas… Admiro e acredito nestas possibilidades todas, mas explica melhor: Como se interligam estes projetos?

P.L.: No fundo, tudo o que faço está relacionado com a busca da felicidade e com a transformação constante. Uma psicóloga/coach acredita profundamente no potencial humano para a superação e amadurecimento; uma formadora/consultora acredita no poder da aprendizagem e da partilha de experiências; uma gestora/empreendedora acredita na possibilidade de criar soluções e projetos com impacto positivo em si, nos outros e nas comunidades… acho que são funções e atividades imbuídas de um forte sentido de esperança e de uma crença inabalável de que a acção bem dirigida e consciente pode levar a resultados desejados!

A.S.: Estamos num tempo em que o incentivo a um estilo de vida natural e de verdadeira união com o Planeta existe. Vejo isso na tua Quinta. Como surgiu este projeto?

P.L.: A Quinta da Quinhas é uma propriedade familiar cheia de história. Pertencia aos avós do meu companheiro, que eram pessoas do campo muito simples mas com uma visão da vida avançada para a sua época (ele era um empreendedor e ela era poetisa, imagina!). Somos peregrinos e a Quinta situa-se muito perto do Caminho da Costa, em Vila Praia de Âncora. Fazia-nos todo o sentido que fosse, na essência, um Albergue. Não será exclusivo para quem está no Caminho, mas aberto a todos os que procuram uma experiência de puro descanso na natureza e proximidade com a vida rural. Como admiramos a dinâmica e filosofia associada ao coworking e sabendo que cada vez mais procuramos um equilíbrio entre as exigências profissionais e a qualidade de vida, decidimos criar também um espaço de cowork, tendo a mais valia de podermos acolher coworkers nómadas por períodos mais longos com estadia no albergue em regime de coliving. A ideia principal é que quem lá está possa integrar as atividades agrícolas, o cuidado aos animais, atividades de lazer e práticas promotoras da saúde integral. Tivemos ambos de nos comprometer com mudanças significativas nas nossas vidas para podermos vir a abraçar este projeto de alma e coração. Como crescemos os dois com ligação ao mundo rural, este abraçar de uma vida de campo é uma sintonia muito especial que nos une.

A.S.: O que gostas mais de fazer na Quinta?

P.L.: Para já a resposta é simples: cuidar dos animais e ver para além do que já existe! Gosto do planeamento, de desvendar possibilidades e de antever cenários felizes. Mas gosto também de estar em total presença com os animais e descobri que pastar as vacas e as ovelhas é uma atividade regeneradora. Um verdadeiro exercício de mindfulness. Quando todas as dinâmicas e serviços se concretizarem, acho que receber as pessoas (peregrinos de todo o mundo, famílias em busca de maior conexão e coworkers empreendedores) vai ser igualmente estimulante.

A.S.: Consideras te empreendedora? O que é isso para ti?

P.L.: Admito que sim e que nem sempre lidei bem com este impulso constante para transformar alguma coisa… Por vezes desejei um estado de maior pacatez, de aceitação do que já é e de desfrute daquilo que é cómodo e “garantido” (ainda que ilusoriamente). Tem sido um processo aprender a equilibrar o instinto empreendedor com a paz de tirar prazer do que já existe de positivo. Para mim, este instinto é um chamamento constante rumo à transformação. De alguma realidade e de nós mesmos, nessa realidade em movimento. Um empreendedor sabe que o risco traz angústias, que o novo traz erros e que a ação traz incertezas. Mas admite enfrentar tudo isto pelo potencial de criar algo que gera impacto de benefício para si, para os outros, para o mundo e para a ética global e universal. Há uma dimensão espiritual do empreendedorismo… como quando plantamos um carvalho e sabemos que apenas aos 100 anos será uma árvore adulta, quando nós já não estaremos cá fisicamente. Ainda assim, faz sentido. Por vezes, empreender é ver a energia que as ações geram para além de nós mesmos e na nossa tão (ir)relevante existência.

A.S.: O que fazes primeiro ao acordar?

P.L.: Depois dos cuidados básicos, gosto de começar o dia com um pequeno almoço em família (por vezes só a dois com o meu companheiro, outra vezes a cinco, casa cheia com os meus três enteados!). Começar o dia com diálogo e sorrisos, é um excelente arranque. Em termos de atividades, irmos para o mar fazer surf e bodyboard é aquilo que nos garante a todos uma boa energia! Para isso, estamos sempre os cinco a postos (e se for preciso acordar antes das 7.00, não há problema!)

A.S.: Para quem quiser conhecer, como se pode entrar em contacto com o Albergue e ficar lá?

P.L.: Neste momento ainda estamos em construção do projecto. A recuperação da casa e sua transformação num albergue começa apenas em Setembro de 2020 e prevemos que em Março de 2021 nos seja possível abrir as portas. O Cowork deverá entrar em funcionamento um pouco depois, talvez em Maio. Neste momento, podem acompanhar o processo nas redes sociais (Facebook https://www.facebook.com/Quinta-da-Quinhas-Albergue-e-Cowork-Rural e Instagram https://www.instagram.com/quinta_quinhas_albergue_cowork) e para nos contactar poderão fazê-lo por essa via ou através do info@quintadaquinhas.pt

A.S.: O que proporcionam para além do óbvio a quem permanece na Quinta?

P.L.: Em termos de alojamento teremos várias opções (camaratas de 4, 6 e 10 pessoas / quartos duplos com WC privado ou partilhado e um quarto acessível a pessoas com mobilidade condicionada). No Cowork haverá packs semanais, mensais e semestrais em open space e em postos com maior privacidade. As instalações vão garantir todo o conforto mas são um convite ao ambiente rural e o objetivo é que hóspedes e coworkers se sintam envolvidos nesta vivência agrícola e de conexão com a natureza. Haverá atividades regulares de grupo para desfrutar das belezas da nossa região, workshops, aulas de ioga e outras práticas promotoras do equilíbrio integral, retiros, aulas de surf… E muitos momentos na nossa horta e com os nossos animais (Lambão e Labrega – Vitelos / Ganguela e Alecrim – Ovelhas). Outra mais valia será que todo o tipo de animal será bem vindo e terá um espaço próprio.

A.S.: Que livro estás a ler? E o que recomendas?

P.L.: Leio sempre dois ao mesmo tempo e gosto de conciliar livros com perspectivas diferentes ou mesmo antagónicas. No momento estou a ler “A Ciência da Felicidade – Psicologia Positiva” de Ilona Boniwell que é um resumo interessante sobre a história e ciência da felicidade e “Ditadura da Felicidade” de Edgar Cabanas e Eva Illouz que é uma crítica e reflexão sobre os malefícios que a indústria da felicidade e do desenvolvimento pessoal podem causar… ou seja, o assunto que mais me entusiasma e uma opinião crítica sobre o mesmo.

A.S.: O tempo é de mudança. A pandemia trouxe esse desafio de forma mais acentuados. Também tens uma página e tenho lido os teus textos brilhantes. O que dirias, de forma simples, ao mundo hoje?

P.L.: Acho que a tolerância, a empatia e a cooperação são o que nos pode salvar! Fico sempre profundamente chocada e triste com a violência, com a violação dos direitos humanos básicos, com o mundo em que muitas crianças vivem, cheio de carências, de maus tratos, de medo… É difícil compreender o que leva os países e sociedades a determinadas realidades, o que leva cada homem/mulher com poder a tomar decisões tão danosas e criminosas. Claro que a sociologia, a antropologia, a política e a psicologia nos ajudam a criar teorias explicativas e percursos evolutivos, mas no íntimo, sinto-me uma criança espantada e incrédula, por vezes assustada, em relação a muitos fenómenos do nosso mundo! Creio que apenas a energia oposta, composta por amor tolerante ao próximo, compaixão e consciência do bem comum, pode trazer um pouco de equilíbrio e esperança. Apesar desta consciência sobre a dor de tantas vidas trágicas a que assistimos como se de um filme se tratasse, esforço-me para me focar naquilo que está no meu/nosso raio de ação e na forma como a nossa abertura aos outros pode criar um energia relacional mais positiva! Diria então para que, a cada momento, nos coloquemos no lugar do outro e cooperemos para que os recursos e as oportunidades cheguem de forma justa e igualitária a tod@s!

A.S.: O que te falta fazer?

P.L.: Sei o que me falta fazer no contexto do projeto de vida que tenho agora delineado. Mas não sei o que me faltará fazer se pensar que a minha vida será muito longa… tenho desejos e sonhos que agora chegariam para várias vidas. Mas sei que estou em constante construção e transformação e isso é uma das realidades mágicas da vida. Não sei tudo o que me falta fazer mas sei que vou fazer tudo o que a cada momento e ciclo me surgir como o caminho que me realiza e me faz levantar da cama com sentido de missão e propósito. Há meia dúzia de anos, completamente dedicada a uma empresa de formação com inúmeros projetos de âmbito social, não imaginava que em tão pouco tempo estaríamos neste novo ciclo.

Mas partilhando um pouco do que preenche a minha bucket list… falta-me visitar inúmeros países, ser peregrina em muitos Caminhos de Santiago, passar mais tempo sozinha no meio da natureza, criar momentos de conexão entre pessoas, ser mãe adoptiva, viver numa casa pequena com o essencial, escrever um livro, continuar a ajudar outras pessoas a seguirem aquilo que lhes faz sentido, envelhecer com ternura ao lado de quem amo…

Minha Patrícia, obrigada. As maiores felicidades. Um bom caminho.

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