Andreia Santos

Opinião. Stand up

Depois de algum tempo ausente, estou de regresso. No dia em que te escrevo, ouvimos em Portugal o discurso de Michelle Obama na Abertura da Convenção Democrata nos E.U., o que gosto de assinalar. Usar o poder que temos para nos fazermos ouvir e apoiar o mundo nunca fez tanto sentido. Sou anti-Trump desde sempre e não creio que o possa negar ou não dizer. Hoje é disto que te quero falar. Não gostaria que te calasses se a tua voz faz falta.

A pandemia, ao contrário do que poderia ter acontecido, fez com que percebesse mais profundamente que não gosto assim tanto de marcar presença em eventos, de estar em encontros, de estar sempre conectada e ao telefone ou pc… Na verdade, a mim, como a ti, estes dias também ensinaram que é bom estar desligado do mundo e na nossa. A tranquilidade que regressou com a falta de imposições que o confinamento e as necessidades de cumprir restrições que o tempo trouxe, a alegria de perder alguma coisa ou JOMO, por oposição ao FOMO (Fear of Missing Out), fez-se sentir, no meu caso apenas se acentuou. Não sou nada ambiciosa e sou muito procrastinadora ao contrário do que te possa parecer. Apesar de retirar um prazer incrível do trabalho que faço e de me recordar frequentemente da que sinto ser a minha missão, sei que ela não se esgota aqui e se pudesse eliminava muita coisa. Não há problema absolutamente nenhum em não fazer nada de vez em quando, nunca é não fazer nada, é uma necessidade humana de parar. E foi muito isto que sucedeu com tantas pessoas nesta fase das nossas vidas: deixar estar. Até porque a maioria ficou assustada, triste e com mais exigências pessoais, o que tornou o abrandamento inevitável.

Sendo para mim absolutamente entendível que o sentimento de segurança humana é preciso, creio que a reflexão anterior vai além do deixar estar em algumas dimensões. Quando nos voltamos para nós ao ganhar tempo, também pudemos, afastando os ruídos ou todas as pressões, compreender melhor o que nos faz andar para a frente. Sediar as nossas vivências no que acreditamos faz com que estejamos mais coerentes e próximos da serenidade e satisfação. (Ainda que limitados pelas circunstâncias). Claro que isto não é igual para todos, há ritmos diferentes. E infelizmente não é imperativo para muitos que se viva de princípios ou não o conseguem manifestar, como por exemplo para os novos angariadores das redes e os angariados, que com tanta debilidade ao nível do desenvolvimento moral, e, em maior número acredito, com tanta carência e dificuldade, não conseguem entender quem os ilude, as falsas promessas e o verdadeiro carácter dos “salvadores da pátria”. É assim que os assassinos ganham eleições.

Assim, e como a pandemia agravou as fragilidades humanas, não falta quem o aproveite também para a conquista da desumanidade sob o arauto da purificação. Tudo um engano. Uma subversão. E volto ao início, apesar de gostar muito de estar na minha, não posso não te dizer isto: sou anti-Trump, anti-Ventura, anti-racista, anti-fascista. Não sou meramente não apoiante dos Trumpistas ou Venturistas, sou mesmo contra eles e defensora da sua total destruição ideológica. Não acrescentam, confundem e difundem o mal e a extinção dos direitos humanos invioláveis pelos quais lutamos e luto. Ou as pessoas não sabem ao que estão ou são movidas por vaidade ou interesse, por egocentrismo e à custa de uma idade mental de 6 anos. Apesar de gostar muito de estar na minha e mais de ficar em casa que sair, sairei (mesmo se fossem as últimas coisas que fizesse) para ser contra. E peço-te que saias. Porque importa. Porque tu importas. Chega de normalização do errado. Já vivemos presos de muitas formas, porém a pior de todas é a que nos limita o crescimento vinda de fora, como se alguém pudesse ser superior a alguém… em ditadura.

A semana passada disse a uma paciente: “pode ser muitas de si e essa é a verdadeira liberdade e o interesse”. Posso explicar: “podemos ser boas pessoas e bem sucedidos/as, podemos ser tradicionais e rebeldes, podemos ser sozinhos e lutadores, vulneráveis e invencíveis…” Confesso que nos últimos tempos muitos me têm tirado do sério quando sou tendencialmente calma. Há limites, os da dignidade, os da integridade. E vejo tantos que os conhecem. Acredito porque testemunho que a maioria dos corações humanos são mesmo mais recetivos ao amor que ao ódio e a ti, só te peço, não tenhas medo, e espera um mundo melhor e igual. (Não em que tolerar se impõe, mas igual em direitos para todos). Existem momentos em que é para sair do sério para falar com e de seriedade. Pela bondade. Um mês de coragem. Até já!

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