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À Conversa com … Nuno Pereira, Gestor de Pessoas

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“Para se ir para a Aventura é preciso perceber que algo tem de ficar para trás.”

Conheço o Nuno há anos e senti que chegou a hora de conversar com ele em jeito de lhe pedir uma partilha de experiências. A sua determinação, na hora de seguir em frente, motivou esta escolha, assim como o caminho que tem vindo a percorrer. É m45uito, muito jovem e tem a vida pela frente já com conquistas felizes.

Andreia Santos: Bom dia Nuno, obrigada por aceitar conversar comigo para o Semanário V. Tenho acompanhado o seu percurso e creio que implica coragem. O que é que o fez deixar Portugal e ir para os EU?

Nuno Pereira: Bom Dia Andreia. Obrigado eu pela oportunidade de conversar um pouco sobre o meu percurso. Bem, em 2017 estava a trabalhar em Gême na Lactimercados como secretário. O que eu fazia estava bastante distanciado daquilo que eu pretendia e tinha estudado, que era gestão de recursos humanos. Nesse mesmo ano, a minha família dos Estados Unidos veio visitar o país e mais uma vez insistiram comigo para que eu fosse visitar os Estados Unidos, para conhecer. Decidi despedir-me do trabalho que tinha e aventurar me como turista e ver o que os Estados Unidos me podiam dar. Acabei por gostar e a melhor forma de conseguir trabalhar no país, que era o meu objetivo, era estudar e assim foi. De uma forma resumida, a falta de oportunidades em Portugal dentro da minha área levou-me a sair.

A.S.: Sei que é muito jovem e tem de facto um caminho já marcado pela multiculturalidade, como é ser um português nos EU?

N.P.: Ser Português nos Estados Unidos cada vez mais é uma raridade, até porque cada vez mais nós portugueses decidimos emigrar para dentro da Europa devido as facilidades de movimentação que a União Europeia e o Acordo de Schengen nos permite. Não vou mentir, muita gente me perguntava de que parte do Brasil é que eu era quando eu dizia que era Português. Mas no final, consegui também colocar Portugal um pouco mais no mapa dos meus amigos e colegas Americanos, e também falar um pouco da nossa cultura. Devido ao numero de emigrantes de todo o Mundo que existe nos Estados Unidos, ser Português acaba por ser mais uma nacionalidade por lá, mas no início foi um pouco complicado adaptar-me a certas regras de etiqueta, pois certos comentários e brincadeiras acabam por não cair tão bem num ambiente tão multicultural.

A.S.: O que julgaram de si lá fora? Somos ou não simpáticos para os outros?

N.P.: Sendo Nortenho, escusado será dizer que fiz dezenas de amigos através das nossas características únicas Nortenhas. As coisas também são diferentes quando somos nós os visitantes e não quando somos os anfitriões. A nossa comunicação social transmite muito a ideia de que os Americanos de uma generalidade são racistas e anti emigração, quando na realidade davam-me os parabéns por ter tido a coragem de ir estudar para la e contribuir com ideias e experiências diferentes. Penso que aconteça um bocadinho em Portugal a mesma coisa. Gostamos mais de mostrar e dar tempo de antena aos casos negativos, quando na maioria os emigrantes que recebemos são excelentes trabalhadores. Isto acontece com a emigração Mexicana nos Estados Unidos. Acho que nunca tinha visto um povo tão trabalhador como o trabalhador Mexicano.

A.S.: O que o desafiou mais?

N.P.: Pela primeira vez na minha vida vi me longe do pai e da mãe, do resto da família, embora eu tenha sido acolhido por primos, mas longe dos amigos e longe dos costumes que aprendi durante 24 anos.
Pela primeira vez vi-me a ter de cozinhar, a ter de limpar, a ter de fazer contas ao dinheiro ao fim do mês. Porém, tudo muito mais fácil pela existência de família nos Estados Unidos. Mas também custou ter de trabalhar nas obras para conseguir obter dinheiro para pagar as minhas despesas numa fase inicial para me desprender da ajuda familiar. Seria sempre mais fácil eu pedir dinheiro aos pais ou a família, mas também já tinha idade suficiente para ser responsável por mim financeiramente.

A.S.: E como é que é viver no país do Trump?

N.P.: Depende. O presidente dos Estados Unidos não é o grande determinante da qualidade de vida de um certo estado, mas sim o governador de cada estado. A vida é tranquila. Não se vêm tiroteios todos os dias como a comunicação social quer fazer passar, a vida no geral é uma vida igual aqui, exceto que muito mais movimentada e muito mais stressante, porque tudo funciona a dinheiro.
Em termos de política, o sistema Americano é bipartidário e leva a que as escolhas para presidente não sejam tão amplas como acontece aqui. Existem mais partidos para além dos Republicanos e Democratas, mas tenho a certeza que a maioria de nós portugueses não o sabe, até porque a maioria dos Americanos não o sabe também.
Portanto, a vida nos país do Trump é uma vida movimentada. É uma vida de 2 extremos em que parecem mais preocupados em discutir uns com os outros do que propriamente melhorar a qualidade de vida do povo americano.

A.S.: Neste momento está em Portugal, mas o que é que se segue?

N.P.: O próximo destino será para Londres. A minha empresa nos Estados Unidos gostou do meu trabalho (e ainda não conheci nenhuma empresa em que não tenha adorado ter um português a trabalhar para eles) e tive a possibilidade de ter boas referências das minhas chefias e o meu percurso de vida causou boa impressão junto da empresa no Reino Unido. E muito provavelmente nem será o meu destino final a medio/longo prazo.

A.S.: O que vislumbra no seu futuro?

N.P.: Eu seguramente daqui a uns anos gostaria de construir família, mas primeiro acho mais importante fixar me profissionalmente, até porque uma casa constrói se pelas bases e não pelo telhado. Profissionalmente falando, sempre tive o desejo de gerir pessoas e felizmente neste momento com esta oportunidade, é exatamente o que estou a fazer, e seguramente no future irei gerir pessoas num contexto mais amplo. A minha paixão é recursos humanos e seguramente irei continuar a trabalhar em recursos humanos num futuro próximo.
A possibilidade de gerir pessoas e ver a sua evolução é algo de incrível, ainda mais quando se gere um programa de recém licenciados em que tenho a oportunidade de ver um grupo de jovens recém saídos da universidade a entrarem pela primeira vez no mercado de trabalho.

A.S.: Estamos em contexto de pandemia e o Nuno estava na Flórida, onde o número de casos era e é assustador. Como foi viver este período lá?

N.P.: Penso que ter vivido na Florida durante a pandemia foi mais difícil para a minha família do que propriamente para mim. As pessoas a minha volta tomavam os cuidados necessários e eu também tomei os cuidados necessários. Em inícios de julho ponderei seriamente voltar para Portugal porque estava com bastante receio, mas isso implicaria terminar o meu contrato de trabalho mais cedo nos Estados Unidos, portanto dessa forma mantive me por la.
A meio de julho, tivemos o pico de 15.000 casos diários, mas a minha família la tomava os cuidados necessários.
O que se tornou difícil, mas penso que isso tenha sido para toda a gente que ficou confinada, foi a perder de alguma vida social. O que era garantido para nós, deixou de ser garantido e exigiu uma energia mental muito elevada para aguentar o que se estava a pensar. E o facto de estar num país onde não existe um Sistema nacional de saúde aumentava um pouco a minha ansiedade. Uma ida para as urgências pode custar milhares de dólares. Uma noite no hospital pode custar milhares de dólares e uma ida aos cuidados intensivos custa milhares e milhares de dólares. Sim, tinha seguro de saúde que por acaso era muito bom. Mas vamos imaginar que o seguro decidia não pagar. Teria de colocar o seguro em tribunal, o que custaria dinheiro. Ia se tornar um mar de dores de cabeça. Por isso acho que devíamos agradecer por termos um Sistema Nacional de Saúde que, apesar de não ser perfeito, não nos ira mandar contas de 50.000 euros para casa nem nos deixarmos a pensar duas vezes se devemos ir ao hospital porque parti uma perna mas em contra partida vai me ficar caro.

A.S.: Como é regressar a casa? Ao seu país?

N.P.: Um grande misto de emoções. Aliviado por certas questões, triste por outras questões, mas estarmos fora de casa faz nos ter muitas saudades daquilo que tínhamos como garantido, quer seja o ir tomar café com alguém no fim do trabalho e beber uma cerveja, ver o jogo de futebol no tasco, e acima de tudo, apreciar a nossa gastronomia de tao rica que é.
Mas também me sinto parado um pouco pois sei que não será aqui que farei vida no curto e médio prazo.

A.S.: O que diria a quem quer ir à aventura? Tem sugestões para dar a futuros estudantes nos EU?

N.P.: Para se ir para a Aventura é preciso perceber que algo tem de ficar para trás. É preciso entender que vai sempre custar, mesmo que se viaje para um local onde haja família, até se leve a namorada atrás, etc.
Para aqueles que decidirem estudar para os Estados Unidos, antes de o fazerem vejam as possibilidades de bolsas para estrangeiros. Penso que há instituições portuguesas que ajudam os estudantes. É necessário que pensem muito bem pois é um grande choque cultural e de realidades. Coisas que damos como garantidas deixam de ser garantidas e passamos a ser nós mesmos a tomar conta de nós em todo o sentido da palavra.
No entanto, aconselho a que quem ir estudar para os Estados Unidos, que tente tirar uma licenciatura ou mestrado STEM (Science, Technology, Engineering, Mathematics) pois cursos STEM garantem 3 anos de autorização de trabalho após a conclusão do curso, ao contrário de apenas 1 ano para os cursos não STEM (que foi o meu caso). Isto permite ter uma maior experiência de trabalho e que depois seja inclusive mais fácil obter um visto de trabalho para quem assim o desejar.

A.S.: a sua experiência, do desempenho profissional que já tem, o que diria aos gestores de pessoas?

N.P.: Que a micro gestão de funcionários faz o oposto daquilo que se pretende, que é obter maior produtividade do funcionário. Das coisas que mais me impressionarem foi a pouca micro gestão a que eu era sujeito, principalmente durante o meu estágio e a minha última experiência de trabalho nos Estados Unidos. Isto permite que a pessoa sinta que existe confiança nela e acaba por melhorar a produtividade.
Outra coisa que diria seria certamente tratar o funcionário como uma pessoa. Houve uma altura em que fiquei doente e a minha chefia mandou me para casa e permitiu me até trabalhar a partir de casa no dia seguinte. Se fosse necessário sair mais cedo do trabalho, também não havia problema. Como havia uma relação de confiança, nem eu me sentiria confortável em enganar a empresa ao tomar vantagem destas “regalias”.
Basicamente, tratar o outro como uma pessoa, e certamente irá ganhar bastante em termos de gestão de pessoas.

A.S.: Agradeço este pedacinho de partilha e desejo a melhor das sortes no caminho, sabendo que as escolhas tem sido suas. Acredita no destino?

N.P.: Não. Penso que só acredita no destino quem tem medo de viver. E digo isto porque eu achava que estava destinado a fazer algo de bom, e que seguramente isso mais dia menos dia iria acontecer. Esquecia-me que era preciso trabalhar para lá chegar e ceder em certas coisas. Portanto, se estou onde estou, não foi por obra do destino, mas sim por obra mim e daqueles que me ajudaram. Somos completamente livres de escolhermos a vida que queremos. E eu acho que temos tudo aquilo que pedimos, mas temos de trabalhar para lá chegar. Por isso acho que às vezes é preciso também ter cuidado com o que se pede, pois somos livres de escolher, mas somos escravos das consequências, sejam elas positivas ou menos positivas.

Fotos: Direitos Reservados

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