Saúde

Atrasos em consultas e exames ultrapassam um ano: “A saúde não é só Covid-19”

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Duas associações de doentes não-covid denunciaram hoje que as colonoscopias estão atrasadas cerca de dois anos e que a mortalidade associada a doenças digestivas entre março e setembro supera a média dos últimos cinco anos, em 7.144 casos.

“Há um estudo publicado recentemente que foi comparar a curva da mortalidade entre março e setembro de 2020, com os últimos cinco anos e de facto verificamos um aumento de 7.144 face à média dos últimos cinco anos”, referiu o presidente da Europacolon Portugal, Vitor Neves, numa conferência de imprensa promovida para alertar para o agravamento da situação de saúde de milhares de utentes “não-covid-19”.

O responsável daquela associação defendeu que os atrasos nas consultas, no diagnóstico, nos tratamentos e cirurgias tem um impacto direto na sobrevida dos doentes oncológicos, que podem ter agora de esperar cerca de dois anos para efetuar uma colonoscopia, por conta dos efeitos da pandemia de covid-19 no Serviço Nacional de Saúde.

Vitor Neves explicou que, antes da pandemia de covid-19 atingir o país, o tempo de espera para realização daquele exame era em média de um ano, nove meses, dependendo do hospital, tempo a que se soma agora os sete meses de pandemia, complementou a presidente da APDI – Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino, Colite Ulcerosa e Doença de Crohn, Ana Sampaio.

“Os doentes já estavam à espera de colonoscopias há mais de um ano, e, portanto, se já temos sete meses a adicionar a este prazo, devemos estar quase nos dois anos”, observou.

Crucial para detetar algumas das patologias do foro oncológico, o atraso na realização de colonoscopia tem ainda como consequência o aumento do sofrimento do doente e dos custos sociais, bem como do orçamento do Serviço Nacional de Saúde.

Por dia, lembrou Vítor Neves, morrem 11 doentes com patologias do foro digestivo, uma a cada hora, 10 mil pessoas no ano de 2019.

“Portanto, os exames de diagnóstico em dia, os centros de saúde abertos para que a sintomatologia dos doentes possa ser acompanhada é fundamental para que diminuíam os danos nas pessoas”, sublinhou, alertando que há 50 mil novos doentes oncológicos por ano.

A Europacolon considera ainda que, além de normalização destes serviços é necessário criar uma estrutura multidisciplinar que possa dedicar-se em exclusivo a resolver os problemas criados pela pandemia de covid-19.

Dela devem fazer parte o Ministério da Saúde, da Solidariedade Social, as ordens profissionais, a indústria e entidades privadas, na procura de soluções capazes.

“Esta é uma oportunidade para reorganizar o Serviço Nacional de Saúde”, defendeu.

A ideia foi também defendida pela presidente da APDI, Ana Sampaio, que sublinhou que as dificuldades no acesso aos cuidados de saúde agravram-se com a pandemia.

“a colonoscopias impactam em dois sentidos, primeiro no diagnóstico, não é possível neste tipo de patologia fazer um diagnóstico sem colonoscopia, ela é essencial para diagnosticar a doença e para saber em que estado está o próprio intestino. Para além disso uma pessoa que tenha colite ulcerosa há mais de oito anos tem uma probabilidade maior de ter cancro e precisa destes exames por rotina”, explicou, indicado que há 20 mil doentes com este tipo de patologias.

Ana Sampaio salientou que os doentes não covid não querem competir com os doentes covid, pretendem apenas alertar para situação, defendendo que “é necessário que a população saiba que além da covid-19 existem outras patologias que necessitam de assistência e assistência regular.

Questionada pelos jornalistas, aquela responsável admitiu ainda que a possibilidade levantada pelo Ministério da Saúde de segregar os hospitais, pode ser uma solução para os doentes não covid.

“Poderá ser uma possibilidade pelo menos de os próprios doentes psicologicamente não terem tanto medo, nem se sintam tão afetados quando se deslocam ao hospital, e isso é muito importante, porque é difícil que as pessoas recorram aos Serviço Nacional de saúde”, disse, lembrando que houve uma diminuição do numero de urgências não-covid.

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