País

Filha apela ajuda para comprar cadeira de rodas elétrica para o pai com Parkinson

(c) Direitos reservados

Foi através de uma cooperação com o jornal Pasquim da Vila que conhecemos o apelo da Alexandra Pereira. Na publicação, a jovem faz um pedido para ajudarem o seu pai, doente de Parkinson há seis anos. O post estava carregado de emoção, e conseguia-se sentir através daquelas palavras não só o desespero da jovem, mas também o imenso amor que ela tem pelo seu pai. O Pasquim da Vila através de Vanessa Reitor conta a história de António.

António Pereira, hoje em dia com 66 anos, era um homem dedicado à sua família, trabalhador, saudável. Alexandra, a sua filha, de 19 anos de idade, conta emocionada, como era a relação com o seu pai “o meu pai era a força desta família. Ele era o meu companheiro, o meu melhor amigo. Um homem sumamente ativo, enérgico. Era um pai presente, aquele com quem eu passeava e aquele que me defendia de tudo e todos. Mas agora, a sua realidade é diferente”.

António, quem há mais de seis anos foi diagnosticado com a doença de Parkinson, que tem sofrido vários AVC’s e que agora tem de viver com um tumor cerebral, já nada tem a ver com o homem que era no passado “os últimos anos têm sido muito difíceis para a nossa família. A doença do meu pai tem vindo a piorar. Apesar de ter sido operado a melhoria não tem aparecido e a situação que vivemos agora, é muito complicada. O meu pai era uma pessoa muito ativa, cheio de vida. Hoje, olho para o meu pai e pergunto-me: quem é o meu pai? Esta doença tirou-lhe tudo!”.

Os pais da Alexandra estão desempregados e ela é estudante. A situação financeira da família é caótica “o meu pai era pintor de construção civil. Logo após o aparecimento da doença, e depois de muito esforço, conseguiu obter a reforma por invalidez. Neste momento, ele recebe a reforma e um valor do apoio solidário para idosos, que são -basicamente- 300 e poucos euros. A soma de ambos é esse valor. É com 300 euros que tentamos viver”, conta.

“O meu pai era quem sustentava esta família. A minha mãe, por ser analfabeta, sempre teve empregos muito precários. O meu pai tenta ajudar com o dinheiro que recebe, mas não é suficiente”.

A jovem, quem está a tirar o curso de organização de eventos, confessa que neste momento não é fácil continuar a estudar “mas tenho de continuar. Porque se eu não estiver habilitada não vou conseguir arranjar um bom emprego e não vou conseguir ajudar a minha família. Mas sou sincera, todos os dias me passa pela cabeça a ideia de largar os meus estudos e ir à procura de trabalho para ajudar os meus pais”.

A jovem desde os seus 15 anos tem tido alguns empregos em cafés e restaurantes da zona para ajudar com algum dinheiro ao orçamento familiar “mas eu não desisto de estudar porque sei que para arranjar um trabalho digno é necessário ter o décimo segundo ano, e por isso, eu não vou desistir. Não quero vir a ser mais um peso para os meus pais”, afirma emocionada.

O dia-a-dia do António é muito difícil, a consciência que tem da sua realidade faz que a angustia seja ainda mais difícil de gerir “o meu pai fala. Está consciente de tudo o que lhe rodeia. Mesmo por causa da pandemia está sempre a me pedir para ter cuidado, para me proteger e andar prevenida”.

Quando perguntamos a Alexandra se o seu pai sabia deste pedido de ajuda que ela está a fazer a jovem responde “não. Eu estou a fazer isto sem o meu pai saber. Porque se eu conseguisse dar a cadeira de rodas elétrica ao meu pai, para ele iria ser uma felicidade enorme. E eu quero muito dar-lhe essa surpresa porque eu, desde há muito tempo, quero dar uma nova vida ao meu pai. Para ele recuperar alguma autonomia e deixar de sentir que é um fardo para nós. Eu já ouvi o meu pai a dizer isso. Já ouvi o meu pai a dizer que preferia morrer a continuar assim, porque ele não suporta pensar que está a ser uma carga para a família. E é muito difícil ouvir isto”, confessa em lágrimas.

Na família da Alexandra as carências são muitas “basicamente a ajuda que eu peço é para conseguir comprar a cadeira de rodas elétrica para o meu pai, assim seja uma em segunda mão. Mas se houver alguém, que também nos possa ajudar com bens alimentares, nós ficaríamos muito agradecidos porque com 300 e poucos euros é muito difícil conseguir pagar as contas de casa, os medicamentos meus e os do meu pai, e que ainda sobre dinheiro para comprar comida”.

Alexandra, apesar de ser tão jovem também precisa medicação. Ela é asmática e tem ataques de pânico e ansiedade. A medicação de que precisa também é diária “eu praticamente não tive infância, cresci muito rápido. Desde sempre tive consciência das dificuldades da minha família e sempre tentei ajudar, desde muito nova. E desde que o meu pai ficou doente sou eu quem trata de tudo em casa: papéis, contas, etc…porque a minha mãe é analfabeta. Infelizmente não sabe tratar dessas coisas e o meu pai, que era quem tratava de tudo, agora não pode”.

Alexandra conta que a família já foi ajudada por algumas instituições da zona onde residem (Gaia) e que tanto a Junta de Freguesia de Canidelo, como a Câmara Municipal, conhecem a história da família “eles já nos ajudaram algumas vezes em bens alimentares. E há uma assistente social que pertence à junta de freguesia que muitas vezes nos tem ajudado com a medicação para o meu pai. Que não é nada barata. Mas desde que a pandemia apareceu ela já não conseguiu ajudar mais. Mas sempre que pode, ainda tenta ajudar”, refere.

António, pela sua condição de saúde toma, diariamente, vários medicamentos. Alexandra afirma que ao todo, o valor da medicação -mensal- que o seu pai precisa, ronda os 600 euros “é quase o mesmo valor da cadeira de rodas de que precisa a qual tem um custo de 689 euros. Ele, todos os dias, tem de por um penso no braço, que o ajuda com os tremores, e só essa caixa de 28 pensos custa quase 122 euros. O meu pai atualmente tem conseguido tomar a medicação graças a ajuda que nos dão. Graças a estas ajudas o meu pai não tem falhado ao tratamento. Já eu há muito tempo que não tomo os meus remédios”, confessa.

“Preciso comprar a minha medicação mas não tenho comprado porque prefiro colocar o meu pai em primeiro lugar. Ele tem 66 anos, ele é meu pai. E assim como ele quando eu era pequena me punha à frente de tudo e todos, agora é a minha vez de o pôr a ele em primeiro lugar”.

A jovem confessa que os ataques de asma e de pânico que sofre têm sido cada vez mais recorrentes “eu ao ver o meu pai nesta situação fico muito preocupada e como não vejo maneira de o poder ajudar, já não sei mais o que fazer para o poder ajudar, entro em pânico e tenho tido episódios bastante graves. Por isso é que eu decidi vir a público pedir ajuda, porque sozinha já não consigo mais”.

António tem uma cadeira de rodas convencional, só assim consegue mobilizar-se “a cadeira do meu pai já é muito antiga. Tem muita ferrugem e é muito difícil ‘puxá-la, fechá-la, abri-la’”, refere.

Alexandra confessa que a relação que teve com o seu pai sempre foi muito próxima “eu sempre fui muito mais pegada ao meu pai. Sempre foi o meu pai que me ajudou em tudo. Eu, há quatro anos, fui vítima de bullying na escola e foi sempre ele que esteve lá e que me ajudou, apesar de já estar doente. Ele nunca desistiu de mim”, recorda em lágrimas.

António e Alexandra conversam muito. Não do passado, que lhes faz relembrar episódios tristes e difíceis, mas sim do futuro “o meu pai diz-me sempre que apesar de ainda me ver como uma menina reconhece que me tornei uma mulher e que sabe perfeitamente que eu irei conseguir muita coisa na vida. E que tem muito orgulho em mim”.

O apoio que a Alexandra e o seu pai têm, a nível familiar, também é muito escasso “a minha irmã mais velha, por parte da mãe, ajuda-nos sempre que pode. Sei que posso contar com ela porque ela está sempre lá. Mas de resto, não temos apoio de mais familiares. O nosso maior apoio era a minha avó (paterna) mas faleceu em 2018. Era ela quem mais nos ajudava, não só em termos monetários, mas acima de tudo, apoio moral. Ela era o nosso pilar. Estava sempre lá para dar uma palavra amiga, para dar força…mas agora já não está, e isso também foi um golpe muito duro para o meu pai”, recorda.

Alexandra conta que neste momento só consegue garantir comida, para ela e para os seus pais, para mais alguns dias “até termos dinheiro para ir comprar alguma coisa. O meu pai recebe a reforma a dia 8 de cada mês. Desse dinheiro temos perto de 20 euros para ir ao talho comprar alguma coisa, e pronto, é tudo”.

Apesar de ter uma situação financeira muito difícil Alexandra confessa “a nossa prioridade quando chega o dinheiro é pagar as dívidas que temos. Quando não temos dinheiro para comprar há uma loja aqui perto de casa que nos deixa levar algumas coisas até voltarmos a ter dinheiro. A dona dessa loja é muito amiga da nossa família, eu vejo-a como uma espécie de madrinha, porque sempre que eu preciso, ela ajuda-me. E depois, quando nós temos dinheiro vamos lá pagar”, conta emocionada.

Quando perguntamos se houve dias nos quais não havia nada para colocar encima da mesa a jovem, confessa, um pouco envergonhada “sim, infelizmente já houve. Preferia que não tivesse acontecido, mas aconteceu. Os meus pais sempre lutaram para que nunca faltasse nada mas infelizmente houve dias nos quais eles não conseguiram e tivemos de comer só arroz ou só massa, porque não havia mais nada”.

A humildade de Alexandra é de louvar. Quando lhe pedimos para fazer um último apelo ela ressalva “qualquer ajuda que nos possam oferecer será muito bem vinda. Seja monetária ou então, simplesmente partilhando a minha história. Isso seria ótimo! Qualquer ajuda, por pequenina que seja, é muito necessária e bem vinda”, culminou.

“Às vezes um pequeno ato de generosidade pode pode mudar muita coisa na vida de alguém“

Partilhe esta notícia!

Comentários

topo