Andreia Santos

Opinião. O Ano das Pessoas

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Falta um dia para nos despedirmos de 2020. Estamos cansados/as, creio que posso falar no plural. Este foi um ano rápido, em que apesar de tudo senti que não tinha tempo: foram muitas as solicitações, os desafios profissionais. Pela primeira vez tive que me confrontar com uma câmara a olhar para mim e ao mesmo tempo ver-me a falar para ela e não gostei, mas enfrentei, o online foi acentuado nos dias, as pessoas foram chegando cada vez mais ao consultório quando regressei depois de confinar. Não deu para refletir tão amplamente a experiência vivida, estive em casa e gosto, mas perdi os meus cafés fora dela e os meus passeios que me alimentam e inspiram e me tornam a pessoa que sou. Não tive muito tempo para mim. Mas não me estou a queixar, tratou-se de uma adaptação, do temporário e do que agora tenho que transformar nos dias. Por isto estou cansada. E também pela lentidão: este foi igualmente um ano lento. Lento na passagem dos dias enquanto lidamos com a incerteza. Lento para chegar às rotinas que minimamente nos satisfazem quando temos que pensar antes de sair de casa. Muito demorado nos reencontros e ainda o é. Muito demorado nos regressos e ainda o é… Muito, muito pesado nas reuniões via zoom que não gosto mesmo nada, embora faça. Muito, muito chato nos contactos com o SNS que ao precisar de se reestruturar, deixou de ter capacidade de articulação com o privado quase sempre que precisei de resposta para os meus pacientes. Estou cansada sim, no entanto não disposta a baixar os braços e na realidade muito mais motivada a continuar.

Ao longo deste ano, e apesar de me ter assustado e ter sentido medo, como todos provavelmente,  em momento nenhum vi a sombra. Agradeço não me ter perdido e deixado de lado a esperança. Sempre soube e acredito que esta é uma fase das nossas vidas. Senti muitas, muitas vezes orgulho apesar das dificuldades e vivi muito mais de uma consciência coletiva que antes. Talvez por isso tenha tido menos tempo. Mas foi uma aprendizagem sem contar sobre os limites de mim mesma. E foi bom. Este foi o ano em que confirmei tudo aquilo em que acredito e por isso foi, apesar das saudades do normal, das imensas saudades, um ano muito especial e meu. Sinto agora no fim que o ganhei, que o superei, que me venci a mim mesma. E estou feliz. No meu coração está a ideia de que vamos voltar e por isso também esta reflexão. Das coisas que aconteceram será do que escrevo neste final de ano, abrindo a porta ao novo.

Este foi o ano da ciência, é absolutamente vibrante compreender que os recursos que temos são tremendos e de uma competência incrível. Absolutamente vibrante a observação dos esforços e das vitórias científicas. Incluindo as da Psicologia. (Traduzo Psicologia por sensibilidade. Isto é muito grande. Isto é finalmente ver mais de nós a serem o que somos e assim maiores). Não quero falar-te dos outros movimentos, mas deste pró-ciência, pró-vida, pró-verdade depois do erro, pró-crescimento. Isto diz-nos que seremos capazes com muita determinação de seguir adiante da pandemia, mas não só. Temos muitos problemas para resolver, um dos principais o da natuereza que nos fez o apelo de a tratar bem.

Este foi o ano da solidariedade. Do “vai ficar tudo bem”, não enquanto negação das perdas, mas enquanto porta para o futuro apesar de tudo. Foram os meses em que demos as mãos e os ombros àqueles que precisaram e àqueles que cada vez mais fomos conhecendo infectados ou feridos pelo covid. Foi um ano em que despertar um sorriso em alguém foi o nosso maior sentido de viver. E isto é impagável e mais uma vez revelador da essência e do que podemos fazer. Podemos efetivamente ser muito mais que o que éramos. Sempre atestei que não à custa da pandemia se daria este passo, esta capacidade já existia e nunca teria sido necessário isto para que sejamos, apenas a vontade e a maturidade bastavam. A pandemia acentuou sofrimento e uniu a todos numa causa comum, trouxe a desaceleração, apesar de não precisarmos do modo como acordamos, verdadeiramente alguns despertaram para o valor da vida. E isto inclui a emancipação civilizacional com a atenção dada igualmente aos animais.

Paradoxalmente este foi o ano da saúde. A atenção ficou voltada para os cuidados. Para a alimentação e estilo de vida saudáveis. Intensificou-se a vontade de viver e viver bem, reduzindo os riscos. Foram meses em que muitas pessoas voltaram ao exercício, deixaram hábitos piores e se dedicaram a cozinhar. Tantas, tantas receitas de pão que circularam nos nossos murais…

Foi o ano em que Biden ganhou as eleições. E isto, apesar dos confrontos, acalmou-me a alma. Quando os Estados Unidos se voltam a abrir à Democracia, à Igualdade e ao compromisso com o que escrevi antes, o mundo inteiro pode respirar e mudar.

Foi o ano das lutas pelos direitos humanos. Os dias em que ressurgiu a vontade de não consentir mais nada que não seja justo e fraterno. Foi emocionante ver tantas pessoas movidas pela fé nas ruas, em plena pandemia, contra a atrocidade. O ano da Kamala Harris e do See No Stranger. Do United. E o ano de Ruth Bader Ginsburg. E o de todas as mulheres que governam e dão o exemplo ao mundo das boas práticas. Obrigada Jacinta Arden pela consideração ao coelho da Páscoa.

Foi, como em todas as crises, o ano dos oportunistas. Dos falsos. O ano em que me custou mais que nunca abrir as redes sociais. E por isso aquele em que, por incrível que pareça, não as visitei tanto.

Este foi um ano muito difícil. De isolamento. De perdas. De despedidas. É possível modificar a realidade enquanto nos quebramos. Isto porque custa muito e até nos derruba. Muitas vezes, a vida coloca-nos à prova no momento anterior àquele em que nos abençoa. E o encontro com a nossa própria dor torna-nos mais hábeis para compreender o outro. Neste final de ano pára contigo. Senta-te no chão. E fica do teu lado. Desliga-te. Abre outra vez a porta depois de abraçares o que te magoa, volta. Há mais para viver.

Inevitavelmente o 2021 será o Ano das Pessoas. Virá carregado de dificuldades. E pede força e a nossa verdade. Depois ele como este terminará com o que fizemos. Deixo-te o apelo: não desistas, o mundo pode ser um lugar ainda melhor. Mais seguro, mais calmo e justo. Não te coloques do lado da sombra e vive, precisamos da fé que provoca a dor no peito quando evocada nas ações. Coloca a vida em primeiro lugar e acredita. No final do próximo ano, proponho um encontro presencial em vez de um artigo. Um encerramento de meses superados com um debate em tertúlia e sem álcool gel. Até já

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