Aires Fumega

Opinião. 1 de janeiro ou 32 de dezembro?

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Quando um novo ano se aproxima, existe invariavelmente uma sensação de libertação. Uma espécie de catarse. Interiorizamos que irá haver uma mudança. Algo de novo irá acontecer. E por tradição fazemos coincidir esse ponto de viragem com a mudança de ano.

Uma espécie de purga. Uma limpeza geral. Corremos com aquilo que é velho e preparamos o caminho para o que está a chegar. Fazemos resoluções, planos etc.

A pergunta que se impõe e que faz parte do título desta crónica, é questionar o que efetivamente acontece no dia 1 de janeiro: Entramos a pés juntos na tal fase nova, um novo ciclo, ou perpetuamos o ano anterior? No nosso calendário aparece o dia 1º de Janeiro ou o 32º dia do mês de dezembro.

Começamos a escrever uma folha em branco, ou protelamos as decisões que tomamos aquando fizemos resoluções?

O último ano foi francamente mau. Porque algo exterior nos encolheu. Alterou a nossa vida.

Criou danos. Uns que nos influenciaram diretamente e outros que nos moeram pela sua colateralidade. Por muito que o medo nos invadisse ou não, a verdade é que pouco ou nada poderíamos fazer contra aquilo que se instalou e nos reduziu os movimentos e as oportunidades.

Fez sobressair o que na realidade somos. Uns melhores e outros piores. Uns cidadãos do mundo e outros centrados no seu próprio umbigo e a defender os seus miseráveis quintais.

O facto de vivermos na parte rica do planeta, atenuou o impacto que teve esta pandemia. Quase que apenas nos limitamos a ficar em casa. Uma situação das mais graves que vivemos na nossa vida, o máximo que nos privamos foi de sair em determinados momentos. Não sofremos os horrores de uma guerra, que felizmente não os iremos contar.

Por também esta pandemia não atingir transversalmente todas as idades, faz como que se relativize o seu impacto. É considerada uma coisa de velhos.

Isso pode fazer de nós pessoas superficiais, egoístas, intolerantes e impacientes.

Quando alguém na televisão perguntava, há dias, nas ruas, qual o projeto para 2021, invariavelmente as pessoas respondiam “fazer uma viagem”. Importante usar um verbo de ação. Fazer uma viagem deveria significar pegar numa mochila e começar uma caminhada. Quando muito pegar no carro. E sair com ou sem destino. Mas o que a maioria das pessoas quer, é ir de viagem. Ter dinheiro para pagar um destino turístico previamente definido por alguém.

Assim é na vida. Procurar algo que possamos fazer sem risco. Trocar o nosso tempo por dinheiro para depois trocar o dinheiro por algo que se possa comprar.

Talvez o fazer não seja isso. O fazer traduz algo mais que ir de viagem. Ou se se quiser fazer a tal viagem, que não seja de dentro para fora do país, mas sim ao seu próprio interior. Ser mais altruísta, ajudar mais, dar-se mais aos outros, talvez seja bem mais útil que deixar-se levar para onde o dinheiro pode pagar.

Coincidentemente ou não, no final do ano surgiu a esperança. Não é um golpe de mágica e essa mudança será progressiva, mas relativamente rápida.

Que esta vacina injete em nós sobretudo grandes doses de altruísmo, resiliência, coragem e vontade de sermos melhores pessoas, para que o dia 1 de janeiro de 2021 não tenha sido apenas o 32 de dezembro de 2020.

Um bom ano para todos!!!

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